De Bagagem pelo Mundo: Flávio Oliveira vai com a trompa tocar pelo mundo para viver da música

De Bagagem pelo Mundo: Flávio Oliveira vai com a trompa tocar pelo mundo para viver da música

Desde pequenino que Flávio Oliveira, natural de Sobrado e Bairros, uma freguesia de Castelo de Paiva, ia com o seu pai e o seu avô ver as bandas.

Nenhuma o encantava mais do que a Banda Marcial de Bairros. O seu irmão mais velho era um dos elementos constituintes da banda. Pelas 8h00 da manhã, já Flávio ficava a espreitar o seu irmão enquanto este vestia orgulhosamente a farda da banda. Nesta altura ainda não percebia muito bem como se dava o nó na gravata, mas de tantas vezes que ficava admirado a ver o seu irmão se preparar para ir tocar a mais uma romaria, aprendeu.

Mal a romaria arrancava, Flávio já lá estava com o seu pai ou avô para escutar atentamente a melodia. E punha-se e imaginar a tocar ele, também fardado, um instrumento. Naquela altura pensava em tocar trompete, porque gostava do som, mas esse não foi o instrumento que lhe valeu o seu ganha pão.

Em 2007 entrou para a banda, tinha ele ele 10 anos. Naquela altura, o maestro da banda, Sérgio Carvalho, pediu-lhe que fosse tocar trompa, face à escassez de instrumentistas neste naipe. E ele lá foi, todo contente. A “alegria com que tocavam”, aquela “garra de dar tudo e o vestir a farda” é uma sensação que descreve como “única”. Foi isso que o fez entrar e, até hoje, ainda por lá se mantém, mesmo que seja difícil e que, por algumas temporadas, se tenham que ausentar.

As suas ausências já foram motivadas por saídas do país. Isto porque afirma que ser músico é andar com três bagagens na mão: “uma a do instrumento, a outra que carrega a nossa roupa, e a outra que vai com os nossos sonhos”. 

Flávio tem apenas 22 anos mas já teve de partir para vários países com a sua trompa na mão e com as outras bagagens. Depois da licenciatura concluída, as portas que se abriram não foram as desejadas, e a remuneração muito menos. Candidatou-se a estágios internacionais para ir enriquecendo o seu currículo e foi passando várias temporadas longe da família, dos amigos, da banda, e da sua estante onde durante mais de 10 anos de formação musical fizeram com que as partituras ali se pousassem.

A primeira vez que foi ainda estava no curso. Em 2016 largou tudo e foi para um estágio na Orquestra Neue Philharmonie Munchen, na Alemanha. Esta foi uma experiência que “nunca mais dará para esquecer. Foram tempos intensos, quer porque era a primeira vez que estava longe da família, quer porque a cultura era outra”.

Flávio Oliveira já tinha ouvido muitas vezes que a música era a língua universal, mas nunca tinha comprovado isso. Quando saiu do seu país sentiu na pele o quão importante era haver uma língua que todos entendiam e que colocava todos em comunicação. “Lembro-me de estarmos todos num bar e chegar um grupo de músicos e começarem a tocar. Começou toda a gente a dançar, a divertir, e há uma gratidão muito grande lá fora para com os músicos que aqui não se vê”, salientou. Os cafés “tinham sempre música ao vivo, e as pessoas davam dinheiro em jeito de apreço por eles”, afirma.

Embora a experiência a Alemanha tenha sido boa, Flávio voltou à sua terra. Os estudos continuaram, as romarias também, mas as oportunidades continuaram a escassear. Sentiu necessidade de voltar a investir na sua formação no exterior. Pegou novamente na bagagem e fez-se ao caminho. Em 2017 foi até à Alemanha novamente, e repetiu o estágio, mas com outro maestro. Depois de mais uns tempos por lá a enriquecer o seu curriculo, voltou a tentar a sua sorte em Portugal.

Decidiu entrar então no mestrado em ensino musical, na esperança que a emigração ficasse por aqui, ou pelo menos fosse ficando pelos estágios e temporadas, e que não se alargasse a longos anos, como vê acontecer com muitos dos seus colegas músicos. Mas os baixos salários e oportunidades na área não o deixaram ficar por cá. Flávio já foi até Espanha e, embora agora esteja na sua terra de férias, já está a preparar as malas para arrancar, daqui as uns meses, para o Luxemburgo. Conseguiu entrar na EUYWO (European Union Youth Wind Orchestra) e já tem o voo marcado para Setembro.

Sabe que vai regressar uns meses depois, mas Flávio Oliveira nunca sabe por quanto tempo vai parar em Portugal. Com 22 anos, vê a sua estabilidade reduzida, algo que o desanima. Mas a “esperança é a última a morrer” e é na esperança que a emigração não seja premente na sua vida, por muitos anos seguidos, que vai fazendo estas temporadas de bagagem na mão. 

 

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