De Boa Saúde: O Poder de Salvar

De Boa Saúde: O Poder de Salvar

Há na morte, ainda, um tabu. Temo-la como certa enquanto acontecimento, mas imprevisível na forma, no momento e nas circunstâncias. No entanto, a certeza de que a enfrentaremos – inclusive através das perdas de quem amamos – parece não nos deixar mais preparados ou elucidados acerca de alguns dos seus contornos.

No “De Boa Saúde” deste mês quero, neste sentido, esclarecer uma questão relevante: a doação de órgãos. Porque na morte, tal como na vida, é importante estarmos informados e sabermos como podemos fazer a diferença, até porque a doação de órgãos é, talvez, um dos gestos de maior altruísmo e generosidade que podemos ter para com outros seres humanos.

A IMPORTÂNCIA DA DOAÇÃO

A transplantação de órgãos é, à data atual, uma técnica relativamente frequente de tratamento de algumas patologias orgânicas que, estando em fase terminal e/ou de falência crítica, necessitam desta substituição de órgão para melhorar substancialmente ou mesmo resolver em definitivo.

Regra geral, os órgãos provêm de um dador morto, embora também seja possível fazer transplantes a partir de dador vivo (sendo o exemplo mais conhecido, o do transplante renal), desde que assegurada a viabilidade do processo e a segurança para ambas as partes. Quando falamos em dador morto, referimo-nos a uma pessoa que faleceu numa Unidade de Cuidados Intensivos de um hospital (dada a monitorização mais apertada e meticulosa do estado de saúde e do corpo), mas que manteve viáveis alguns dos seus órgãos que, depois de corretamente avaliados, são “colhidos” em tempo útil para poderem, então, salvar outras vidas.

DOAÇÃO PRESUMIDA

Se está a perguntar-se “e o que é que é preciso fazer para poder ser dador(a) de órgãos?”, a resposta é simples: nada! Isso mesmo, não precisa de fazer nada. Isto porque, em Portugal, vigora uma lei que assenta no conceito de doação presumida, ou seja, a partir do momento em que nascemos, todos somos potenciais dadores de órgãos. (Já pensou? Nasceu com um verdadeiro superpoder e, se calhar, nem sabia!)

Caso não queira ser dador, aí sim, terá que preencher um impresso próprio para o efeito, que pode encontrar em qualquer Centro de Saúde, declarando a sua vontade de que não lhe sejam colhidos órgãos após a sua morte. Deve submeter esse impresso ao Registo Nacional de Não Dadores (RENNDA) – registo esse que é, logicamente, consultado antes de qualquer colheita.

IMPORTA ESCLARECER

Tal como referi há pouco, a doação de órgãos implica uma certificação minuciosa, de forma a evitar perigos, erros ou constrangimentos, por isso, aquela ideia ainda frequente de que “não quero ser dador porque posso não estar realmente morto/a e ainda me tiram um órgão” não faz, de todo, qualquer sentido!

Para além disso, saiba o seguinte: se se declarar como não dador, pode, a qualquer momento, reverter esta decisão. Para isso, basta remeter ao RENNDA novos impressos, manifestando a sua vontade em anular a informação anterior. Para além disso, a sua objeção à doação pode ser total ou parcial, ou seja, pode definir quais os seus órgãos ou tecidos corporais que não autoriza que sejam utilizados.

UM VERDADEIRO SUPERPODER

Acabo este artigo como comecei, reconhecendo que há realmente na morte ainda um tabu. Mas acredito que é papel de todos nós contribuir para a desmistificação de algumas questões, esclarecendo assuntos tão importantes como este.

Passamos a vida a ansiar ser super-heróis, com poderes extraordinários e capacidades sobrenaturais, no entanto – e ironicamente – é no momento da nossa morte que podemos, quem sabe, ter verdadeiramente esse papel e salvar vidas.
Agora que tem conhecimento deste seu superpoder, por favor, não o anule! Viva a sua vida de forma intensa e feliz; quanto ao futuro…logo se vê.

Eu volto em setembro e, como sempre, espero encontrá-lo/a de boa saúde. Até lá!

Dr. Francisco Santos Coelho
Médico Interno de Medicina Geral e Familiar

Deixar um comentário

O seu e-mail não será publicado. Campos obrigatórios marcados com um *

Cancelar resposta