De Boa Saúde: Dor? Não, Obrigado!

De Boa Saúde: Dor? Não, Obrigado!

Ainda não nos habituamos a falar de dor. A falar verdadeiramente, de forma clara, colocando os pontos nos is e esclarecendo o que é necessário. Mesmo tendo sido recentemente incluída no grupo dos sinais vitais (dada a sua importância clínica), a dor continua a ser uma espécie de parente pobre nos cuidados de saúde. Mas não queremos que assim seja e, por isso, hoje ela é o tema.

 

DOR AGUDA vs DOR CRÓNICA

Em primeiro lugar, é importante distinguir estas duas entidades.

A dor aguda é um sintoma que constitui uma resposta fisiológica normal perante um determinado estímulo doloroso; geralmente é limitada no tempo (desaparecendo com o fim/cura da lesão) e tem uma função protetora e de alerta, tendendo a prevenir, por exemplo, o aparecimento de lesões adicionais.

a dor crónica é considerada uma doença. Isso mesmo: a dor crónica é, por si só, uma doença! Isto porque já não apresenta qualquer função protetora ou de alerta, acabando por causar “mais mal do que bem”. E quando é que a dor se considera crónica? Ora, em termos de timing, classificamo-la assim quando persiste por mais de 3 meses, embora existam também outras formas de a poder definir.

 

UMA DOR DE ALMA

A dor crónica é muito mais frequente do que aquilo que possa pensar e, por ser constante e desagradável, acaba por causar muitos outros problemas, como a depressão ou a ansiedade, interferindo verdadeiramente com quase todas as atividades diárias de quem dela padece. Ter dor crónica, frequentemente acaba por se tornar sinónimo de maior inatividade e isolamento social e mesmo da família, associados a uma preocupação e angústia constantes em relação ao seu próprio estado de saúde.

Neste sentido, apesar de ser essencial procurar/excluir sempre uma causa física para a dor, com certeza já entendeu que há um contributo psicológico significativo neste processo e que não pode ser esquecido. Por tudo isto, o impacto pessoal, social e económico da dor crónica é realmente grave, pelo que é cada vez mais importante que todos – profissionais de saúde ou não – estejamos sensibilizados para a reconhecer e, acima de tudo, para procurar ajuda.

 

NINGUÉM TEM QUE VIVER COM DORES!

A afirmação pode até parecer controversa, mas a verdade é essa mesmo, sem tirar nem por: ninguém tem que viver com dores.

Uma vez cumprido o papel de alerta e de proteção, não existe nenhum outro motivo que justifique que a dor se mantenha presente, muito menos a longo prazo, por isso, é importante tratá-la. Este assunto daria facilmente para mais um ou dois ou três artigos, no entanto, hoje quero deixar-lhe apenas algumas ideias-chave:

– Regra geral, o tratamento da dor crónica quer-se multimodal: com analgésicos, métodos físicos (como a fisioterapia) e tratamentos psicológicos individualizados.

– A OMS criou a chamada “Escada Analgésica” que nos orienta, enquanto profissionais de saúde, na gestão da potência dos analgésicos que vamos prescrevendo ao longo do curso da doença, bem como nos tratamentos complementares que devemos propor. Dos analgésicos simples aos opióides, passando pelos anti-inflamatórios ou outras estratégias, são muitas as opções: o importante é que procure ajuda, num desafio partilhado com o seu médico assistente de tentar controlar a dor e, acima de tudo, melhorar a sua qualidade de vida.

– Por fim, saiba que os cuidados paliativos podem ser também uma grande ajuda em muitos casos. E não, estes cuidados não se destinam, de todo, apenas a doentes oncológicos! Devem estar ao acesso de todos, porque paliar é confortar. Mas disto, fica a promessa, falaremos num dos próximos meses.

 

E como a conversa já vai longa, hoje ficamos por aqui. Eu volto no mês de agosto e, como sempre, espero encontrá-lo/a de boa saúde.

 

Dr. Francisco Santos Coelho

Médico Interno de Medicina Geral e Familiar

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