De Bagagem Pelo Mundo: Vânia Santos tem saudade da sardinha e dos Santos Populares

De Bagagem Pelo Mundo: Vânia Santos tem saudade da sardinha e dos Santos Populares

Agosto, para muitos emigrantes é sinal de férias, alegria, e regresso a Portugal. Mas não é assim para todos. Vânia Santos teve de fazer as malas em agosto de 2008 para ir até à Bélgica. Deixou para trás os pais, os amigos, e toda a sua história de vida.

Lá fez a sua bagagem mas, se fazer a mala de um é difícil, fazer a de dois ainda é pior. Vânia tinha um filho com dois anos. Tinha estado a educa-lo longe do seu marido, na solidão do amor e na necessidade de outro pilar para educar. Foi esse o motivo que a levou a deixar Cinfães e também ela integrar as estatísticas do número elevado de emigração que Portugal tem.

Viajaram os dois, unidos no amor de mãe e filho e na força alimentada pela esperança de que, quando o avião aterrasse, ambos teriam uma vida bem melhor. E assim foi. O medo instalado nos primeiros tempos foi-se dissuadindo com a companhia do pai e marido destes dois cinfanenses. As paisagens bonitas da Bélgica ajudavam a colmatar as saudades dos campos verdejantes de Cinfães, do cheiro da água do rio Bestança.

Por esta altura do ano, Vânia Santos lembra sempre as Marchas de Santo António que juntavam centenas de pessoas num desfile asseado de brilho e cor, acompanhado pela música em que se cantavam versos que elogiavam cada freguesia de Cinfães. Do Santo António ao São João, do balão na mão ao manjerico, até ao sabor das sardinhas em cima do pão. “Ai que saudades tenho eu desses Santos Populares, numa altura cheia de animação”, disse ao recordar. São 11 anos longe de Cinfães num mês cheio de atividades mas que, nem sempre, dá para tirarem férias e marcarem presença. É sem sardinha no pão que esta família vai viver os Santos Populares. “Sabe, aqui não temos assador. Nem que se encontre as sardinhas, acaba por ser um peixe que não consumimos”, salientou. Têm de optar por outros sabores que em nada fazem lembrar a época. “Por isso, nem festejamos por aqui. Vamos acompanhando pelos registos que nos fazem daí e que vão partilhando nas redes sociais”, referiu.

Mas foi longe desta euforia que a vida de Vânia Santos se começou a fazer. O seu filho entrou para a escola e lá teve de aprender mais línguas. “O maior problema é que estamos num pais onde se falam duas línguas, a partir da terceira classe têm de aprender mais uma língua que é o neerlandês”, explicou Vânia Costa. Mas com o tempo, o seu filho foi aprendendo a ler e a escrever. Nove anos depois, Vânia e o marido quiseram repetir a experiência de serem pais. A casa foi-se compondo aos poucos e poucos. Embora fossem mais bocas para alimentar, Vânia conseguiu trabalho na Bélgica, ao contrário de em Portugal. São dois ordenados a entrarem e a qualidade de vida foi aumentando. Este é o lado melhor de terem deixado o território cinfanense. O problema é que, “por muito bem que a gente esteja, as nossas origens falam sempre mais alto”. E isso faz com que Vânia não descure a possibilidade de voltar. Sabe que não o fará enquanto, pelo menos, o filho mais velho não terminar os estudos não o fará. Isso “acarretaria mais mudanças numa idade em que a estabilidade é fundamental”.

É muito difícil estar longe da família, dos amigos, dos sítios onde crescemos. Não tenho dúvidas de que quero voltar

Sabe que nesse dia vai sentir saudades de algumas coisas que a Bélgica tem, ou não fosse uma cidade “com muitos e belos monumentos, parque bonitos e onde nos sentimos seguros com os mais novos, com um povo muito acolhedor”. Sentem mais falta é do calor e das praias porque na Bélgica “o tempo é muito húmido e frio”.

Mas a mente de Vânia já só está o verão. Todos os dias olha para o calendário que tem na parede da cozinha e percebe que está cada vez mais próxima da data em que os quatro vão pegar na bagagem e visitar as origens. “Está quase. É quase como um objetivo que nos move todos os dias que estamos longe e que nos fazem apaziguar a dor da saudade”, concluiu. Nas próximas semanas vai ficar atenta às redes sociais para ver como estão a correr os Santos Populares por cá. É assim que vive esta emigrante, apaixonada pela sua terra Natal.

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