Liliana Castro: a jovem que arrasta multidões em Baião

Liliana Castro: a jovem que arrasta multidões em Baião

Não importa o ritmo, o lugar, o horário nem os olhares. Em Baião há uma professora que está a mudar, para melhor, a alma e os hábitos da comunidade.

Não há ninguém que ainda não tenha ouvido falar da “Lili”, como é carinhosamente tratada pela população de Baião. Além de simpática e talentosa, esta jovem de 28 anos faz amigos com facilidade. Dela, todos conhecem a simplicidade, amabilidade e criatividade. Dos miúdos aos graúdos, todos reúnem consenso relativamente a esta bailarina, nascida e criada em Baião, que um dia teve um sonho: colocar a comunidade a dançar.

Assim que terminou o curso de Desporto no Instituto Politécnico de Bragança, Liliana Castro regressou a Baião e conseguiu trabalho no único ginásio (naquela altura) que laborava no centro da vila. “Sempre gostei de dançar, desde criança, mas em Baião não existia uma escola onde o pudesse fazer. As únicas oportunidades que tinha para dançar aconteciam nas festinhas de escola. Tirando isso, dançava no meu quarto”, diz. Foi com base nesta experiência que a recém-licenciada chega a Baião, decidida a mudar o panorama com a “noção que se revelava um plano muito difícil por estarmos num concelho muito especial”, conta.

A taxa de desemprego em Baião não é irrisória. A escolaridade dos mais velhos, sobretudo das mulheres, continua a ser muito baixa e as características geográficas do concelho, um território imenso com mais de 500 lugares, eram o ponto de partida para que “tudo corresse mal”. Mas não foi assim. No ginásio, a jovem deu a sua primeira aula de dança “a sete alunas”. De aula em aula o número foi crescendo. Ao fim de poucos meses estavam a dançar quatro dezenas de crianças, “um número incrível” que levou esta jovem a ousar abrir em Baião a sua própria escola de dança, que assina em nome próprio, e que caminha a passos largos para as duas centenas de alunos, de todas as idades, vindos de todas as freguesias.

Dança e inclusão social: o poder desta relação

Admitindo que os números superam as suas expectativas, Liliana Castro conta, emocionada, que a dança conseguiu reverter algumas depressões de alunas suas e que, por vezes, a saída para a aula de dança é o “único mimo” que oferecem a si mesmas. “A dança é um instrumento de socialização poderosíssimo. Para muitas destas mulheres, que estão desempregadas e onde a vida no campo, as tarefas familiares inerentes à casa, marido e filhos, ocupam todo o seu dia, a dança serve para as integrar junto de outras pessoas da comunidade”.

Na Academia de Dança Liliana Castro há, além do Zumba para adultos, diversos estilos POP para crianças e os alunos são tantos que o espaço começa a não ter capacidade para aulas com turmas muito grandes. No entanto, a pensar nas pessoas que não têm forma de se deslocar à Academia, a professora também percorre as várias freguesias do concelho “para que todos possam dançar”. Os salões das juntas de freguesia ou de associações ou entidades costumam ser o ponto de encontro para quem, não perde, semana após semana, as aulas da professora “Lili”. “Estas aulas pelas freguesias têm servido para quebrar as barreiras do preconceito e tornar as pessoas mais confiantes, não apenas no ambiente dos ensaios, mas na sociedade em geral. A mulher não sai só de casa para ir à missa ou ao supermercado e passa a sair para vir dançar. Veste uma roupa diferente, dá umas gargalhadas com os outros elementos da turma, faz desporto e diverte-se”.

Eventos são um sucesso

São vários os eventos artísticos para os quais a professora Liliana é convidada a participar. As comemorações do Dia Internacional da Mulher, o Sarau de Dança, as festas de natal, ou o Carnaval, são disso exemplo. Na última edição do Carnaval de Baião, uma das maiores edições de sempre, a bailarina conseguiu preencher um quarto do corso com os seus alunos, ao colocar quase 150 praticantes de zumba a dançar em simultâneo, com indumentárias iguais, um momento visualmente bonito que não deixou ninguém indiferente. “A dança também envolve outros protagonistas, como os habilidosos para a costura, por exemplo”, refere, indicando que “há espetáculos onde os costureiros, bombeiros, floristas, empresas de som e luz trabalham afincadamente durante meses, juntos”. No espetáculo comemorativo do Dia Internacional da Mulher, onde Liliana fez a direção artística, mais de 1000 pessoas acorreram ao Pavilhão Multiusos de Baião e não arredaram pé até ao final para ver o espetáculo onde a dança se mistura com a música. Qualquer evento organizado por si surpreende, a cada nova edição, pelo número, que cresce a cada ano, de alunos de dança que envolve. Quando lhe perguntamos qual é o segredo, a bailarina diz que não sabe mas acredita que “o facto de ser muitas vezes, além de professora de dança, uma amiga e confidente das suas alunas, também ajuda”.

Dez meninos estão a fazer história

As aulas são maioritariamente compostas por mulheres mas é uma turma com dez rapazes que se destaca. A professora, orgulhosa, diz que “colocar 10 meninos a dançar é um sonho” porque a ideia da comunidade “é a de que a dança é para meninas. Completamente errado. A Dança é uma das manifestações artísticas mais democráticas que existem e num concelho com uma cultura enraizada que é tão especial, dar aulas a uma turma só de rapazes é um privilégio. As grandes escolas do Porto, por exemplo, não têm turmas de rapazes”, conta, orgulhosa. “E não é que eles dançam mesmo bem?”, remata, a sorrir.

1 comentário
Susana Ferrador
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1 Comentário

  • Fernanda Melo
    5 Junho, 2019, 9:35

    Muito bem, que Deus lhe de muita saúde, e alegria para continuar assim, devia de haver mais pessoas como ela para animar o pessoal a sair de casa, a descontrair avia menos depressão e mais saúde.
    Muitos parabéns

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