Marco de Canaveses: Casal caminha há 43 anos para estar diante da Nossa Senhora de Fátima

Marco de Canaveses: Casal caminha há 43 anos para estar diante da Nossa Senhora de Fátima

Há 43 anos que José David Pinheiro e a sua mulher, Maria Luísa, caminham juntos pela fé. A 6 de maio, arrancaram com os bens essenciais às costas e só vão parar quando avistarem o Santuário de Fátima e ouvirem os sinos a tocar a melodia da canção “Ave-Maria”.

É este casal que coordena o grupo de peregrinação de Alpendorada, em Marco de Canaveses, que vai até Fátima. Todos os anos o grupo reúne mais de 50 pessoas e, juntos, percorrem as ruas do país a pé, movidos pela fé, a fim de fazerem cumprir as suas promessas no dia 13 de maio.

“Uns vão a pão e água, outros em silêncio durante mais de seis dias”, contou José David Pinheiro. Seja qual for a promessa, só descansam quando “respiram o ar puro de Fátima”.

Muitos meses antes da partida, este grupo já estava a organizar toda a logística que a peregrinação a Fátima requer. “Delineamos tudo o que vamos servir ao nosso grupo”, constatou o casal.

Maria Luísa vem acompanhar o grupo há 43 anos. No início, ajudava a sua mãe, que era a grande cozinheira do grupo. “Fui aprendendo com ela todos os cuidados a ter em cada prato que fazemos. Nada pode estar muito picante nem muito salgado para não lhes fazer mal à saúde”, disse. Depois da sua mãe deixar de ir, Maria Luísa assumiu o cargo.

O bife foi levado à mesa duas vezes durante o percurso, prato este que foi confecionado por Maria Luísa e temperado pelo seu. “Serve-se bife várias vezes durante o caminho para dar força”, realçou a cozinheira. Mas é no convívio em redor da mesa que se recuperam verdadeiramente as forças. “Foram seis dias de grandes alegrias, de muitas conversas, de muito apoio uns aos outros. É isso que marca o nosso grupo de peregrinação”, explicou José David Pinheiro. 

Depois dos 258,7 quilómetros nos pés, de muito convívio, mas também de muito sacrifício, eis que chega a ânsia pela chegada ao Santuário. Se, pelo caminho, cada um vem ao seu ritmo e chegam aos poucos e poucos aos pontos combinados, a chegada a Fátima faz-se em família.

Em silêncio, todos os anos este grupo dá os primeiros passos pela calçada do Santuário. Ao fundo, avistam as torres do Santuário. É nesse momento que as mãos se dão, os olhos se fecham, as palavras não saem, e as lágrimas escorrem pelos rostos. “Não há palavras, simplesmente, para explicar a emoção. No ano anterior, num abraço do grupo avassalador, quase perdi os sentidos. Dei por mim a segurar-me de pé, porque estava enrolado nos braços deles”, contou.

Assistem todos juntos às comemorações, rezam cada um à sua maneira. Uns, cumprem as promessas de joelhos, outros a rastejar. Não importa como expressam a sua fé, mas sabem que neste dia “ela é mais forte que nunca”.

No dia em que este casal de Alpendorada não conseguir ir neste grupo de peregrinação que coordenam há quatro décadas, este casal sabe que vai sentir um vazio. Com as lágrimas nos olhos, José e Maria Luísa trocam um olhar que reflete a tristeza de pensarem que a idade, um dia, os vai impedir de conseguir ir. “Vá, mas nem que vá de carro e espere lá por eles para o momento da feijoada a 13 de maio”, brinca, com a voz tremida, enquanto tenta afastar o pensamento.

 “Em dias de peregrinação, não há doença que nos pegue”

A “Dona Carmo”, como é conhecida no grupo, é a responsável por fazer os curativos. Quando era jovem, tinha o sonho de ser enfermeira. No entanto, nunca teve a oportunidade de estudar mas o gosto ficou sempre nela. Juntou-se ao grupo de peregrinação de Alpendorada e acompanhou mais uma vez os peregrinos com a sua mala de curativos. “Vamos sempre perto da Cruz Vermelha mas, mesmo assim, as pessoas preferem ser atendidas por ela, gostam das suas massagens e do seu jeito de cuidar”, afirmou José David Pinheiro.

Porém, dizem que os percalços têm sido poucos ao longo destes 43 anos de caminhadas rumo ao Santuário de Fátima, embora não entendam bem porquê. “Andamos aqui agasalhados, em casa, e andamos com gripes. Mas quando vamos, mesmo estando chuva e dormindo em tendas, nada nos pega nestes dias”, expressou, mostrando a sua admiração. Para explicar isso, só vê uma justificação: A força de cumprir as promessas é tal, que não há tempo nem espaço para recaídas.

A viagem este ano correu “igualmente bem”, mas faltam as palavras ao casal pois há um nervosismo que não sabem explicar referente às poucas horas que faltam para rezarem junto da Nossa Senhora de Fátima.

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