Dia da Mãe: Ser-se mãe de prematuro no serviço de Neonatologia do CHTS

Dia da Mãe: Ser-se mãe de prematuro no serviço de Neonatologia do CHTS

“Tinha tudo para ser uma gravidez perfeita. A barriga crescia, o meu bebé mexia. Já brincávamos mesmo enquanto só havia ‘tu e eu’. Só havia a amargura de ter perdido a minha mãe, pouco antes de ter o Jaime no meu ventre, e isso impediu-me de ser mãe a 100% nos primeiros meses de vida”. Estas são as palavras de Betâmia Soares, natural de Penafiel, ao olhar para o seu primeiro rebento, o Jaime.

Betâmia perdeu a sua mãe pouco antes de engravidar. E como não há amor maior que o de mãe, Betâmia sentiu uma grande ausência, que nem o pequeno Jaime conseguiu colmatar de imediato. Foi uma gravidez “pouco desejada” mas hoje, sabe que ser mãe é uma grande sensação. Tanto que já vai no segundo filho.

Ainda assim, tudo corria bem até ao dia do parto. Jaime decidiu nascer antes da data prevista, e quando chegou pela primeira vez ao mundo não soube respirar pelos pulmões. “Esteve cerca de três minutos sem respirar. Não percebi das complicações até ao momento em que perguntei à enfermeira se o Jaime já tinha nascido. Disse que sim, e por isso questionei-a ‘porquê que ele não chora?'”, contou.

Foi um susto grande, e anunciava os dias traumatizantes que o casal viveu a seguir ao parto. Jaime teve de ficar nos cuidados de neonatologia. A mãe, ficou sozinha num quarto, isolada de todo o mundo da maternidade. “Foi tudo menos o que sempre sonhei“, frisou, contando que foi colocada num quarto, longe do choro dos bebés, para que não fosse uma situação ainda mais traumatizante do que realmente foi.

“Mal o Jaime chegou, levaram-no de mim. Foi a pior sensação que senti na minha vida. Quando nasceu, vi uma equipa de médicos à volta do meu bebé, nem um vi. O pai acompanhou-o até à incubadora, onde Jaime ficou, por sorte, apenas um dia”, explicou.

Chorou a noite toda, queria ser mãe mas estava longe do seu bebé. Não tinha visto o seu rosto, e sabia que algo tinha corrido mal. Começaram os pesadelos das mazelas que os três minutos sem respirar poderiam deixar no bebé. Não sabia quando iria pegar na sua mão, quando lhe daria o peito, quando poderia sentir o que era ser mãe. “Era apenas eu, sem marido, sem Jaime, e até sem a minha barriga, foi muito traumatizante”, recordou.

“As mães são sempre as melhores mães. Mas ser mãe de um bebé prematuro é especial, porque todos os sonhos se acabam a partir do momento em que pegam no bebé e o levam e colocam dentro de uma caixa de plástico”, contou o coordenador da unidade de neonatologia do Hospital Padre Américo, Braga da Cunha. Tem mais de 30 anos de serviço a ajudar mães de filhos prematuros. O objetivo é só um: Tornar os bebés e a sua família capazes de fazerem vida lá fora, sem a ajuda de profissionais.

Mas até esse dia, a caminhada revela-se longa. “Associam-se inúmeros riscos quando se fala em bebés prematuros. É aí que o mundo de cada mãe, e pai, desaba. Ouvir de um médico ‘Vai nascer’, sem contar, é um susto, porque há muita preocupação com o que vai acontecer com o bebé”. Quem lida com as mães de bebés prematuros sabe que é preciso iniciar um processo de adaptação ao ser mãe.

“Nos primeiros dias não soube o que era ser mãe. Fui e deixei de o ser no mesmo dia”, contou Betâmia Soares. Durante o tempo de que fala esta mãe, foram as enfermeiras quem assumiram o verdadeiro sentido da palavra “mãe” à nascença de um bebé. Passadas 24 horas do nascimento de Jaime, o bebé saiu da incubadora. Foi um caso de sucesso pois a inadaptação do bebé ao mundo “é algo frequente, mas que assusta muito porque se confunde com paragem cardiorrespiratória”.

“Somos nós que damos os banhos, que lhes damos comida, que lhes cantamos as primeiras canções de embalar. Acabamos por assumir um pouco as funções das mães, até porque muitas delas ficam incapacitadas de o fazer nos primeiros dias devido à maioria das vezes o parto ser por cesariana”, contou a enfermeira responsável pelo serviço de neonatologia, Teresa Santos Pereira.

Esta enfermeira trata de bebés – inclusive de prematuros – há 25 anos. Explicou que, quanto menor é a idade gestacional, mais cuidados este bebés precisam. No CHTS, na unidade que coordena, recebe bebés a partir das 30 semanas de gestação. “Mesmo assim, ainda é um bebé muito imaturo e precisa de muitos cuidados. Ficam na incubadora, com vários aparelhos a monitorizar, sem alimentação por via oral, com acessos e limitações que impressiona as mães”, disse.

Betâmia Soares conta que o pai, o único que viu o bebé numa incubadora, reagiu mal ao vê-lo rodeado de tecnologia, que colocava barreiras físicas e psicológicas aquando do contacto com o ser que colocou no mundo.

O médico Braga da Cunha explicou que há uma equipa no CHTS, intitulada “Crescer com Afetos” que dispõe de ajuda psicológica, apoio dos enfermeiros e outros profissionais, que tentam colmatar estes sentimentos das mães, dos pais e dos irmãos daquele bebé.

“Eles precisam de muita ajuda, e cada família tem o seu tempo e a sua forma de lidar com o caso”.

Enquanto a mãe ou o pai vai percorrendo o corredor que, ao fundo, tem a porta que dará o primeiro acesso ao bebé, as enfermeiras vão preparando-os para o ambiente com que se vão deparar. “Enquanto lhes colocamos a batinha, vamos falando, mas nesta primeira fase só falamos o necessário, muita informação pode causar mais angústia”, frisou Teresa Santos Pereira.

O mais importante, é centrar no bebé. Foi isso que Betâmia fez mal conseguiu chegar perto do seu primeiro filho, um momento que descreve como sendo de “muita emoção” mas de “incerteza” de como lidar com o bebé a partir daí. O mais difícil, explica, foi a amamentação. “Como o Jaime ficou longe de mim nos primeiros dias, não lhe dei de mamar, e por isso só mamou até aos três meses”, contou.

Hoje, em pleno Dia da Mãe, o Jaime já tem três anos. É uma criança saudável, com um crescimento ótimo para a idade, tal como disse Betâmia, orgulhosa. Mas ao recordar as emoções que pautaram o nascimento do seu filho, fala que há uma ausência que nenhum bebé consegue colmatar: o da nossa própria mãe. “A falta que a minha mãe me fazia não me permitiu ser mãe a 100% de imediato, só mais tarde o consegui ser”, constatou, com a saudade pautada na voz.

O sentimento, nos primeiros meses de vida, intensificou-se com o aumento do contacto pele com pele, entre mãe e filho. Na posição de canguru, sentiu o pequeno corpo de Jaime junto ao seu.

“O método de canguru é muito importante, porque coloca o bebé com a fralda no colo da mãe, pele com pele. Dá muita tranquilidade à mãe e ao bebé, é uma emoção bonita de ser observada”, salientou Braga da Cunha. Mas nem sempre este contacto é fácil, tendo em conta que, muitos dos prematuros, estão ventilados, com a face pouco visível, e a requerer muitos cuidados. “Tentamos cada vez mais evitar os tubos externos para facilitar o contacto entre pais e filhos, que é o mais importante”, acrescentou.

O papel do CHTS nos casos de preamaturidade e de cuidados no serviço de neonatologia, passa pelo ouvir os casais. Debitar informação a mais às vezes não é tão vantajoso quanto isso. Quanto mais independente e mais maduro é o bebé, mais as mães são participativas nos cuidados ao seu filho. “Vão dando o banho, colaboram na parte da alimentação. A confiança ao longo do tempo vai sendo diferente”, disse a enfermeira Teresa Santos Pereira.

Quando é a hora de ir para casa, vem o frio na barriga. No CTHS encontraram o apoio necessário aos cuidados. “Quando vão embora, pensam que sozinhos não conseguem. Mas isso passa tudo, e temos um serviço em que é possível contactar-nos assim que surgem dúvidas”, contou a enfermeira. Isso aconteceu com Betâmia, por se sentir amparada pelos profissionais, que afirma terem desempenhado “um serviço de excelência até ao momento do regresso”. 

Talvez por isso haja mães que festejam o primeiro aniversário dos seus bebés no CHTS, em jeito de gratidão para com as enfermeiras que foram também mães.

Ao relembrar o serviço de neonatologia, todos falam do mesmo: Uma vez por ano, pais, bebés e os profissionais de saúde encontram-se num almoço convívio. “É muito engraçado, alguns chegam lá com sete anos, já nem os reconhecemos, é uma grande alegria”, contou o médico Braga da Cunha.

Nesse sentido, em pleno Dia da Mãe, é natural que todos se sintam de parabéns. As enfermeiras, pelas mães que foram enquanto as progenitoras não o puderam ser; e as mães de filhos prematuros, pela coragem que tiveram em cada tentativa de ser mães durante a prematuridade.

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