Páscoa: 40 anos a levar a Cruz de Cristo a beijar pelas casas do concelho de Castelo de Paiva

Páscoa: 40 anos a levar a Cruz de Cristo a beijar pelas casas do concelho de Castelo de Paiva

Adriano Sousa anda há 40 anos com a cruz de Cristo na mão. Desde cedo que manifestou o seu gosto em dar, no dia de Páscoa, a cruz a beijar de porta em porta. Com apenas 20 anos, Adriano Sousa deixou de festejar a Páscoa em sua casa. Foi ter com o padre daquela época e pediu se poderia ter esse papel diante de Deus.

“Sempre fui ligado à igreja e tinha um gosto enorme por carregar a cruz pelos longos caminhos do concelho em memória de Jesus Cristo”, disse. Assim passou a entrar na casa de quem, com gosto e fé, lhe abria a porta. Contente pela sua missão, recorda que ia vaidoso e cheio de responsabilidade ajudar a cultivar a fé naquele que diz ser “o dia mais importante para a igreja”.

40 anos depois, Adriano Sousa vai deixar, pela primeira vez, de carregar a cruz nas suas mãos. Com as lágrimas nos olhos, diz que é melhor aceitar que, aos 66 anos, não é de admirar que o joelho lhe doa e o impeça de fazer aquilo que ama. Ainda assim – respirou fundo – será quem “organiza todas as cruzes e todos os percursos”.

Muitas histórias diante de mais de 800 casas

Em Castelo de Paiva há 800 casas para dar a beijar a cruz, só na paróquia de Sobrado. Cada Compasso fica encarregue de cumprir a sua missão em cerca de 80 casas. “O caminho que já faço há muitos anos é a ‘Vila 1′, um percurso pautado por escadas e caminhos difíceis, é lá que sinto que estou, ano após ano, a envelhecer… mas faz parte”, confessa com um tímido sorriso espelhado no rosto.

Diante desses longos caminhos, muitas são as histórias. Questionado por quais teriam sido as mais marcantes ao longo destes 40 anos, Adriano Sousa respondeu de imediato: “Aquelas casas a que fui onde alguém tinha morrido de véspera”.

Nessas casas, afirma que há um grande “nó” na garganta. “Só recebe a cruz quem tem fé, mas para quem perdeu alguém que ama é um momento doloroso. Entrar na casa e faltar ali aquele homem ou aquela mulher”, pausou Adriano, num silêncio que reflete a dor que também ele sente a cada episódio deste.

Mas há histórias animadoras, e isso colocou-lhe novamente um sorriso no rosto. “Sabe que as pessoas têm gosto em colocar grandes mesas, é carne, é chouriças, é Pão-de-Ló e, claro, o vinho”, começou por descrever. Já estava a dar a entender qual o desfecho da sua recordação, continuou: “Uma vez, um dos homens do Compasso, bebeu em todas as casas. Quando chegamos aqui há igreja, pegou no cesto das moedas. Passado um bocado só ouvimos moedas pelo ar, tinha caído de tamanha bebedeira”.

A alegria das crianças na Páscoa alterou-se

As risadas e as histórias que conta fizeram-no recuar até à sua infância. Adriano Sousa fala que as crianças, atualmente, não vivem com tanta alegria a data. “Não se envolvem tanto com o dia porque são mais desligadas da igreja e da catequese, há sempre atividades mais importantes”, lamenta. Na sua altura, em dia de Páscoa, os mais velhos do seu lugar iam até às varandas das suas casas e as crianças ficavam em baixo. “Era uma chuva de amêndoas, era a ver qual era o que mais amêndoas conseguia apanhar, era uma alegria, não havia vergonha nem nojo de se apanhar comida do chão”, conta.

“É difícil arranjar quem vá no Compasso”

Naquela época era também natural ver no Compasso o sino a tocar pelas mãos delicadas e pequenas das crianças. Mas agora, essa, é uma missão difícil. “Já não se arranja crianças assim, quando as há, são da família do pai que anda no Compasso também”, sendo quase um testemunho que passa de geração em geração.

Também as mulheres são figuras cada vez mais raras a compor os grupos de Compasso. “Talvez porque têm os seus filhos e que tratar dos almoços, mas a verdade é que era uma coisa que a nossa paróquia faria muito gosto em ter mulheres”, explicou.

A escolha de quem forma os vários grupos de Compasso não é de ânimo leve. “Temos de ter em atenção quem vai, andar com a cruz tem um significado religioso e, por isso, quem anda nisto tem de ser alguém que acredite, que pratique a fé e que seja responsável e de bom caráter”, salientou.

Menos casas a abrir mas a mesma fé em dia de Páscoa

As pessoas abrem as portas das suas casas com gosto e fazer cumprir a tradição é uma responsabilidade “levada muito a serio” por quem a faz cumpri. Ainda assim, são cada vez menos as pessoas que abrem a porta das suas casas. “Uns já não vivem cá, outros vão a casa dos familiares e, outros, nem sequer querem-no fazer, a cruz anda de manhã e muitos preferem ficar na cama”.

Mas quem abre fá-lo com gosto: “limpam tudo, é um cheiro a lixívia nas casas. Antigamente cheirava a cera e a sabão porque o chão era de madeira”. Até os cheiros mudam mas a fé ainda perdura em muitos daqueles que hoje voltaram a receber a cruz de Cristo, símbolo da ressurreição de Jesus Cristo.

“Para o ano, espero que o joelho ajude, e que esteja de novo pelos caminhos a fazer cumprir a minha vontade e a transmitir a palavra e história que nos dá alento todos os dias”.

 

Deixar um comentário

O seu e-mail não será publicado. Campos obrigatórios marcados com um *

Cancelar resposta