Bagagem pelo Mundo: Viver a Páscoa em Cinfães e na Suíça é diferente para Ana Ferraz

Bagagem pelo Mundo: Viver a Páscoa em Cinfães e na Suíça é diferente para Ana Ferraz

Ana Ferraz deixou Portugal há seis anos. Nasceu em Escamarão, uma freguesia do concelho de Cinfães. Era ali que tinha tudo. Com os primos nas casas do lado, a animação era uma constante. Ana era uma criança alegre que brincava descalça pela calçada, sem medo de se sujar, de cair e levantar.

Com a família em seu redor, a entreajuda desde cedo se manifestou nela, e a Páscoa era uma altura em que isso se colocava em evidência. Já na sua adolescência, Ana Ferraz recorda que, nesta época do ano, andava de casa em casa a ajudar os seus parentes a limpar. Nesta localidade – assim como em outras da região – é tradição arregaçar as mangas e fazer a “faxina” nas habitações em jeito de preparação para receber a cruz de Cristo no Domingo de Páscoa.

“Lembro-me de ir para casa da minha avó até emigrar. Nunca falhava. Eu e as minhas primas íamos para lá colocar tudo ‘de pernas para o ar’ para que estivesse tudo pronto para que a família se reunisse toda na chegada do compasso”, recorda.

Em pleno dia de Páscoa, as recordações são muitas para esta mulher, agora com 36 anos e que na Suíça vive esta época pascal de forma muito diferente. E a saudade daquilo que outrora acontecia para assinalar a ressurreição de Cristo são imensas. Tantas, que Ana Ferraz confessa que fica sempre com a lágrima no olho quando puxa do baú as memórias que aludem a estas experiências.

Antes, eram cerca de 20 pessoas que andavam de casa em casa dos familiares para beijar a cruz. Agora, a sua Páscoa vive-se a três. Ana, a sua filha Carolina de cinco anos, e o seu marido e sem cruz para beijar.

No primeiro ano que Ana Ferraz esteve na Suíça, o padre de Várzea conseguiu fazer com que um Compasso passasse pelas casas da comunidade portuguesa que vive em Schmerikon para que vivessem uma Páscoa mais semelhante à sua. Mas isso só aconteceu um ano. “As pessoas não respeitavam, umas até gozavam e penso que por isso nunca mais se voltou a ter a cruz de Cristo nas nossas casas neste dia”, contou.

É com amargura que diz que não há esta tradição no país que a acolheu. Sente falta de toda essa magia. Para colmatar as saudades, hoje reuniu-se à mesa com outros portugueses num restaurante onde os sabores evocam a memória da sua terra natal. O “Centro Português” é o local escolhido para o almoço de Páscoa. Confraternizam e esquecem, por momentos, o que está a acontecer a mais de 2.400 quilómetros.

“Somos emigrantes duas vezes”

Pela família, Ana Ferraz deixou tudo para trás. Com cinco meses de casada, “o amor falou mais alto” e veio para a Suíça com o marido. Casar e estar longe da sua cara metade não era solução. Por isso, decidiram dar a mão e enveredar por esta experiência juntos.

Mas a verdade é que, pouco tempo depois, perceberam que também a Suíça os separou. Ana Ferraz considera-se emigrante duas vezes. Ana está a viver Schmerikon, com a sua filha. Já o seu marido conseguiu arranjar trabalho a longos quilómetros de casas. Veem-se ao fim-de-semana apenas e a sua filha anseia todos os dias pela chegada do pai. É assim há dois anos.

Ana Ferraz acaba por continuar sozinha a maioria do tempo e o que lhe vale é a sua filha. Mas falar em solidão remete para o dia em que a pequena Carolina nasceu.

Durante a gravidez, Ana pegava no seu carro e dirigia-se, sozinha, ao hospital. O marido, a trabalhar longe de casa, não conseguia acompanhar o crescimento da “sementinha” que tinha colocado no seu ventre.

Conseguiu trabalhar até a bebé nascer e isso alegrava os seus dias e colmatava a solidão. Ligava todos os dias à mãe, que estava em Escamarão, em Cinfães, para contar como corria a gravidez. Também para esta mãe não foram momentos fáceis. Viu a sua filha grávida apenas por fotografias e videochamadas que iam fazendo.

Mas o momento mais difícil, descreve, foi o dia do parto e os dias que se sucederam. “Quando nasceu a Carolina foi uma alegria enorme, mas acompanhada de alguma tristeza pois não tinha lá ninguém que me ajudasse, que me desse um beijo de reconforto, nem pai, nem mãe, nem irmão”, recorda com amargura.

Nos dias seguintes, Ana Ferraz conta que só queria ouvir a voz da sua mãe já que ela não estava lá para lhe ensinar os pequenos truques como só as avós sabem fazer. O seu marido conseguiu ficar uma semana em casa. Com três meses de vida, o pequeno rebento do casal – Carolina – viajou 19 horas para conhecer a restante família. Foram até Portugal e esse foi o momento em que a alegria voltou a estar presente na vida do casal.

“O que dói muito é perceberes que perdes muito da tua família, e a tua família de ti. A distância é dolorosa”, confessou. Afirma que o que mais lhe custa é o momento de partida, pois sabe que a solidão vai voltar a bater à porta.

“Penso sempre que posso não voltar a ver alguém no próximo ano. Só vamos a Portugal uma vez, por norma no verão. Não consigo deixar Portugal sem ver a minha avó, pois é a mais velhinha. Venho sempre com o coração apertado com medo que seja a última vez que a vejo”, explicou.

Mesmo com todos estes sentimentos negativos, Ana Ferraz não deixa de endereçar um agradecimento ao país que a acolheu. Sabe que todo o sacrifício que fez foi para ter uma vida melhor, objetivo esse que afirma estar a ser cumprido.

Quando emigrou, julgava que iria passar na Suíça “cerca de meio ano”. Mas já lá vão seis anos desde que partiu. Foi-se aguentando e fazendo amigos. Também quando chegou à Suíça não conseguiu arranjar trabalho que ocupasse todas as horas do dia, situação que melhorou com o passar dos anos. Ana Ferraz faz limpezas em casas e já muitas amizades fez por onde passou.

Tenta fazer as comidas típicas portuguesas para que, através do paladar, sejam apaziguadas as saudades. “Mas aqui nada é igual, não tem nada a ver com a comida da mãe, com o calor da família”. Mas gosta da humildade das pessoas que por lá encontrou: “Aqui não ligam muito a aparências, se és rico ou pobre, o que importa é o caráter, se és honesto e humilde”.

 “Ainda assim, não há nada igual ao nosso país, só é pena que não haja oportunidades aí como há aqui”, salienta.

Por isso, espera um dia voltar. O casal já tem casa em Portugal e deseja que seja lá o seu “ninho”.

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