Baião: Arte das bengalas de Gestaçô sobrevive graças às Queimas das Fitas

Baião: Arte das bengalas de Gestaçô sobrevive graças às Queimas das Fitas

As bengalas fabricadas pelos artesãos da freguesia de Gestaçô são um dos produtos artesanais mais conhecidos do concelho de Baião. A produção surgiu nos finais do século XIX, tendo a sua produção sido impulsionada por Alexandre Pinto Ribeiro, que abriu a sua oficina em 1902.

Com o passar das décadas, depois de um período de maior fulgor, o negócio tornou-se vítima do fenómeno na globalização. A entrada em cena de comerciantes que disponibilizam a preços mais baixos aquele produto, feito de materiais como o plástico (que implicam um menor custo de fabrico), originou uma redução drástica na produção das bengalas de Gestaçô.

Poucos lamentam tanto este facto como Serafim Teixeira, um dos derradeiros fabricantes daquela freguesia ainda em atividade.

“Nascido e criado em Gestaçô”, o artesão de 58 anos trabalha no mesmo ofício desde que largou os estudos, aos 11 anos. “Quando saí da escola, o meu pai, que trabalhava nisto, diz-me assim:

– Vais trabalhar para a minha beira.

Assim fiz e fiquei sempre nas bengalas. Nunca tive outra arte”, contou ao Jornal A VERDADE.

Atualmente, são três os bengaleiros no ativo na freguesia, números risíveis quando comparados aos de outros tempos. “Antigamente, há uns 40 anos atrás, havia aí sete ou oito oficinas com 15/20 empregados. Produzia-se muito mais. Depois, vieram estes chineses e estragaram tudo. Vai-se a uma loja dos chineses e encontra-se uma bengala a três/quatro euros. A esse preço, não posso vender”, confessou amargurado.

Perante este cenário, Serafim é perentório quanto ao futuro do ofício que pratica há 47 anos. “Não tem futuro, cada vez está pior. O artesanato é muito mal pago e não se vê ninguém aprender, ninguém quer. Mais 10/15 anos e isto acaba”, sentenciou.

Porém, a situação de declínio inverteu-se quando os estudantes universitários decidiram adotar as bengalas de Gestaçô para as Queimas das Fitas, que, assim, se tornaram na principal fonte de rendimento do negócio. “Oxalá que isto dure por muitos anos, porque, se isto acaba, é que é o caraças. Praticamente durante meio ano, estou a trabalhar para isto”, comentou o artesão.

Feitas a partir de madeira de lodo ou de castanheiro, Serafim produz uma média de 400 bengalas deste tipo numa semana, num total de 5000 por ano, que depois se espalham de norte a sul de Portugal. “São baratuchas, mas, como é em muita quantidade, dá resultado. Eu faço para um senhor do Porto, que, depois, as distribui por todo o país”, referiu.

Entre abril e maio, as Queimas das Fitas invadem os blocos televisivos de notícias e, para Serafim, ver aí as bengalas que fabrica é algo que o deixa orgulhoso. “Gosto de ver na televisão as bengalas no ar, a bater umas nas outras”, admitiu bem disposto.

 

Porém, o gestaçoense mostra-se mais reticente no que toca ao futuro profissional dos estudantes. “Oxalá que tenham trabalho, mas não vejo nada. São milhares e milhares e estudar e não se vê ninguém a aprender a trolha, não se vê ninguém a aprender lavoura”, lamentou, considerando que, perante esse cenário, “é difícil encontrar trabalho para todos”.

O trabalho destes artesãos foi dado a conhecer mais aprofundadamente ao público com a abertura do Museu da Bengala, em Gestaçô. Aí, Serafim revela que “ainda se vende alguma coisa”. Para além deste local, as vendas concretizam-se, maioritariamente, através da autarquia e da loja da Dolmen, em Baião, embora numa quantidade insuficiente para dar rentabilidade ao negócio. A sustentabilidade deste ofício passa, assim, pelas Queimas das Fitas, onde jovens de todo o país dão novo fôlego a um produto originalmente destinado aos mais velhos.

 

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