De Bagagem pelo Mundo: Tânia passou a infância a viajar mas foi em Portugal que sentiu o racismo

De Bagagem pelo Mundo: Tânia passou a infância a viajar mas foi em Portugal que sentiu o racismo

Tânia Matos, tem 36 anos, nasceu em Celorico de Basto e sofreu de racismo. De pai moçambicano e mãe transmontana, passou a vida a emigrar, passando por vários países, como Inglaterra, Suíça, Holanda e França.

Até aos 18 anos foi assim, de lado para lado, mudando de escola, de amigos, de climas e culturas. Mas sempre encarou isso de forma positiva, que a enriqueceu enquanto pessoa e a tornou mais forte para lidar com as pedras que se atravessaram no seu caminho.

O tom da pele que cobre o seu corpo – de que muito orgulha Tânia – faz dela mestiça e alvo de comentários, por vezes, depreciativos. Questionada por onde passou pelas situações mais difíceis, a resposta foi imediata: em Portugal.

Hoje, Tânia mora em Lordelo, concelho de Paredes, e o que mais lhe custa é ver o seu filho, pequeno, a ser alvo de comentários racistas. “Isso custa-me mais do que tudo o que já ouvi na vida”, confessa. Mas Tânia sabe bem o que é estar emigrada, ou a saltitar de terra em terra em Portugal. Não quer que o seu filho passe pelas mudanças de escola, de amigos, e de cidade como ela teve de passar por causa do movimento migratório dos pais.

“Nunca estive mais de dois anos no mesmo sítio. Passei os dias entre família paterna e família materna, onde as culturas eram diferentes, assim como as formas de viver”, explicou.

Aos 14 anos nasceu a irmã mais nova de Tânia, e a sua mãe decidiu regressar a Portugal. Dois anos depois, foi a vez do seu pai voltar. Nasceu o irmão de Tânia. A emigração parecia ter deixado esta família, mas não. Aos 18 anos chegou a vez de Tânia emigrar sozinha para França. Já lá tinha estado a passar férias mas a paixão àquele país era muita. E ainda hoje recorda, com saudade, a normalidade com que a variedade de culturas era encarada. Ninguém olhava de lado por ser mestiça, por ter piercings e tatuagens. “Os pretos são burros”, ou “os pretos só servem para trabalharem para nós”, ouve nos cafés por onde passa.

Não teve medo de arregaçar as mangas. Trabalhou como cozinheira e na apanha da fruta. Mais tarde voltou a Portugal. Foi viver para Paredes, onde ainda permanece. Os nove meses em que a sua barriga cresceu foram o motivo do regresso. Queria ter o seu filho no país onde nasceu, por mais que gostasse dos outros por onde a bagagem passou. Assim o fez.

Agora, o menino já anda na escola. Os miúdos ainda pensam que fazem solário porque Tânia e o seu filho são morenos, e não negros. “Temos que ser nós a trabalhar isso, a saber lidar com esses comentários. Tenho orgulho nas minhas raízes. Mas enquanto mãe, custa o dobro ouvir isso”, disse.

A sorte de Tânia é que a turma do seu filho já é inclusiva: “Há brasileiros, franceses, uma menina autista e uma menina de cor”. Na família a variedade de culturas é grande e, por isso, torna-se mais simples para o filho de Tânia perceber que não somos todos iguais. “A família do pai, tanto tem pessoas de cor, como louros de olhos azuis”.

E foi aqui, por terras lusas, que Tânia teve um apoio que a fez “quase” esquecer todas as vezes que o povo português fez bullying com o seu filho e praticou racismo com ela. Isto porque agarrou-se às suas origens, a tudo o que aprendeu em Celorico de Basto. Mexer na terra, plantar e colher frutos. Sentia falta disto no bairro em que vive. As crianças não saem à rua com medo dos perigos que as escuras esquinas escondem. Então decidiu lançar “a semente” que deu origem a um grande fruto: o seu projeto escolar, criado a pensar nas crianças e na natureza, que está a aguardar o parecer positivo.

“Ensino-lhes que nada existe sem a amizade. Coloco-os a trabalharem juntos na terra, a plantarem, num trabalho articulado entre alunos e professores”, explicou com o orgulho explícito nas palavras.

Tânia dá workshops e aulas de jardinagem, ecológica e sociedade, a turmas do pré-escolar, um trabalho que consiste em pôr as crianças em contacto com aquilo que os rodeia, com o máximo respeito, tal como aprendeu em Celorico de Basto. “Em Celorico era livre, apesar da minha avó (materna) não gostar de pessoas de cor”, esclareceu.

Tânia cresceu “aqui e ali” e afirma que “nunca na vida vai fazer isso ao filho”.  De uma coisa tem a certeza: “Se cairmos nunca mais nos levantamos, por isso hoje dói um pouco, amanhã já não dói tanto, e um dia já nem nos vamos lembrar” dos momentos menos bons da vida, acredita, mantendo acesa a chama da vela, símbolo de paz e de esperança de uma sociedade melhor e mais inclusiva.

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1 Comentário

  • Desconhecido
    8 Abril, 2019, 5:00

    Gostei muito da história, é triste que nos dias atuais ainda exista isso, mas ainda não sofreste tanto preconceito como eu sofri, sendo brasileiro. Vivo no Marco a 4 meses e em Portugal a 4 meses e meio trabalho com metalo-mecânica e ja viajei a trabalho pelo Estados Unidos e pela Dinamarca. Morei temporariamente no Texas, estado que acredito ser o mais racista do MUNDO e nao sofri se quer nada, mas aconteceu quando em Portugal. É a coisa mais triste que se pode acontecer. Minha historia de vida é como vim parar em Portugal não é das melhores e mais alegres e ainda acontece isso. Triste, mas é a realidade. Ameaçado, amedrontado, xingado, ofendido, tudo em apenas 1 dia. Fique forte Tânia, a vida não é e não será facil.

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