Confecções Manuela & Pereira, o negócio que começou por “brincadeira” e que se tornou vital para a economia de Baião

Confecções Manuela & Pereira, o negócio que começou por “brincadeira” e que se tornou vital para a economia de Baião

“Tripeira” de gema, Manuela nasceu no Porto, mas o marido é natural da freguesia do Gôve, em Baião. Foi aí que, há 30 anos, decidiram arriscar e criar do zero uma empresa de confeções numa zona onde o setor agrícola predomina e a indústria rareia.

No entanto, o negócio deu os primeiros passos na cidade Invicta, onde o casal se conheceu. “Iniciámos o negócio no Porto como alfaiataria, porque o meu marido foi alfaiate durante muito tempo. No início, começou como que numa brincadeira, mas acabou por funcionar”, contou-nos Manuela.

Em 1989, surgiu a oportunidade de assentar raízes em Baião, o que a empresária decidiu fazer pelas pessoas lá da terra. “Numa dada altura, fomos convidados a fazer uma formação profissional no concelho com 24 pessoas, com apoio da câmara e do IEFP. Finda essa formação, tivemos pena de mandar as pessoas embora e, então, resolvemos criar um espaço para podermos começar a produzir aqui em Baião”, revelou. Foi assim que, em maio de 1990, surgiu a Confecções Manuela & Pereira.

Apesar da importância da empresa para a economia local, a construção da zona industrial de Eiriz também significou um forte impulso para o negócio de Manuela. “As coisas foram funcionando e pensámos em criar uma unidade industrial de raiz. Na época, estávamos a pensar fazê-lo nos nossos terrenos, mas o presidente da câmara de então resolveu criar a zona industrial de Eiriz”, afirmou.

Nesse período, as unidades fabris do Porto e do Gôve ainda funcionavam em simultâneo. Porém, a dada altura, foi necessário escolher uma em detrimento da outra. “As coisas foram crescendo e, a partir de certo ponto, não foi possível continuar com as duas unidades, porque se tornava complicado”. Posto isso, optaram por desistir do negócio no Porto e apostar as fichas todas na fábrica de Baião.

Inicialmente, a empresa focava-se em peças de fabrico mais simples. Contudo, o mercado obrigou Manuela a aventurar-se para fora da zona de conforto. “No início, fazíamos o casaco mais clássico. A dada altura, percebemos através de um cliente de exportação que os casacos clássicos iriam deixar de ser produzidos  na nossa Empresa “. Por isso, tomaram a decisão de abandonar essa produção, mesmo que isso lhes tenha “reduzido substancialmente as encomendas”.

No entanto, mais tarde, o mesmo cliente propôs-lhe que produzissem um sobretudo de senhora mais difícil de fazer, desafio que Manuela encarou sem receios. “Era uma peça mesmo difícil, mas, como eu gosto de coisas difíceis, não houve problema. Aceitei esse desafio porque queria provar que era capaz de fazer novas coisas”. E o sucesso foi claro: o cliente considerou o resultado “excelente” e encomendou logo mais unidades, tendo, inclusive, aumentado em muito a encomenda da peça confecionada anteriormente.

Com 90% da produção destinada – direta ou indiretamente – à exportação, Manuela tem de estar permanentemente atenta ao que se passa fora de portas. “A realidade empresarial pode mudar de um momento para o outro. Nós vivemos numa globalização e basta acontecer qualquer coisa nos Estados Unidos ou na China que imediatamente se sente aqui no nosso país”, referiu.

Apesar da competitividade no setor têxtil ser feroz, Portugal tem, segundo a empresária, vantagens nesse mercado: “tem uma marca muito forte no setor, é visto como tendo muitas capacidades e conhecimentos na arte de fazer bem e melhor. Enquanto isso continuar a acontecer, nós vamos ter condições para ter encomendas”. Mesmo assim, no mundo da indústria, o sucesso está longe de ser um dado adquirido: “temos é de nos preparar para um futuro menos bom, porque pode vir a acontecer!”

A visão de Manuela fê-la ter sucesso onde muito poucos se arriscariam aventurar, visão essa que continua a ter em mente hoje em dia. “Todos os empresários devem olhar para as suas unidades e pensar: o que é que nós podemos fazer melhor? O que é que nós podemos oferecer de diferente ao nosso cliente? O que é que podemos fazer pelos nossos trabalhadores? Se estivermos com esta perspetiva de tentar ver mais longe, possivelmente, manter-nos-emos daqui por muitos anos”, garantiu.

Inicialmente, a empresa começou por dispor dos 24 trabalhadores da formação, maioritariamente compostos por mulheres baionenses. Agora, esses números mais do que duplicaram, fazendo da Confecções Manuela & Pereira uma peça-chave na economia local.

Contudo, Manuela revela que não foi fácil mudar a mentalidade de uma comunidade habituada desde sempre ao trabalho agrícola. “No passado, havia uma distinção muito grande, porque as pessoas não tinham uma cultura de trabalho. Eram pessoas que trabalhavam no campo, ao ar livre, e eu recordo-me que, quando elas passaram a trabalhar num local fechado, era-lhes muito complicado manterem-se quietas a trabalhar no seu posto de trabalho”, recordou.

Aos dias de hoje, cada vez mais as empresas apostam na valorização dos seus recursos humanos e a Confecções Manuela & Pereira não é exceção. “Se nos preocuparmos só com números, não vamos conseguir ter trabalhadores motivados”, defendeu Manuela. Para além de ter um fisioterapeuta disponível diariamente na empresa e de apoiar causas sociais, muito do sucesso do negócio passa pela constante formação dos funcionários. “Ao longo destes anos, temos dado muita formação aos nossos trabalhadores e trabalhadoras. Só assim é que conseguimos que elas sejam muito polivalentes e flexíveis. Atualmente, os nossos trabalhadores têm mais conhecimentos do que, se calhar, algumas pessoas do litoral”, revelou.

Preocupada com a comunidade onde se insere, a empresária tem colaborado com a Associação Empresarial de Baião, por lhe reconhecer mérito a qual tem “realizado um trabalho muito bom ao longo destes anos” no apoio aos comerciantes locais, a quem Manuela deixa um conselho. “Os comerciantes de Baião precisam de um forte apoio. Os empresários nem sempre percebem a dinâmica do comércio e tentamos passar-lhes a mensagem de que têm de sair da sua zona de conforto e investir, apostar na formação e aprender. Aquela pessoa que julgar que já não tem mais nada para aprender, efetivamente, está morta”, sentenciou.

Natural do Gôve, Andradia faz parte da equipa da Confecções Manuela & Pereira há nove anos e não lhe falta amor à camisola. “Para mim, é um orgulho trabalhar nesta empresa, também porque gosto daquilo que faço. Sinto-me bem aqui, é a minha segunda casa. Encontrei aqui uma família”, afirmou com satisfação.

Naquela freguesia baionense, tal como em grande parte do concelho, encontrar empregos que não estejam ligados à agricultura não é tarefa fácil. Por isso mesmo, a funcionária valoriza o posto que ocupa na Confeções Manuela e Pereira: “nesta zona, é só mesmo esta empresa que temos e há que dá valor a isto e lutar para que continue!”

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