De Bagagem pelo Mundo: Aos 67 anos, Ademar Rodrigues está em Baião mas com Luxemburgo no coração

De Bagagem pelo Mundo: Aos 67 anos, Ademar Rodrigues está em Baião mas com Luxemburgo no coração

Vivem hoje em Portugal cerca de nove mil portugueses pensionistas que outrora foram emigrantes luxemburgueses. Entre Lisboa, Porto e Vila Real, há 7% e desses, Ademar Rodrigues faz parte. Aos 67 anos é pensionista e vive a sua reforma na tranquilidade de Baião.

As recordações dos tempos de emigrante bateram-lhe à porta quando foi notificado para, aos 67 anos e já em Portugal, exercer mais uma vez o seu direito ao voto nas Eleições Sociais do Luxemburgo. Por esse motivo, fez recentemente uma publicação no Facebook, a prova de como, mesmo reformado, continua a votar no país que o acolheu aos 37 anos.

Apresentou-se de boné na cabeça, fardado a rigor com as cores da OGBL, isto é, da Confederação Independente do Sindicato do Luxemburgo. E não lhe faltou o símbolo luxemburguês: a bandeira. Tudo isto para apelar ao voto de todos aqueles que, tal como Ademar Rodrigues, foram emigrantes deste país e que hoje vivem em Portugal e receberam o boletim de voto.

Mas é errado pensar que esta responsabilidade social e política de Ademar Rodrigues nasceu aos 67 anos. Ademar Rodrigues nasceu em Foz-Tua, no concelho de Carrazeda de Ansiães. Um lugar que descreve com o orgulho sentido nas palavras: “O lugar onde nasci é o lugar mais lindo do mundo, Foz Tua, que neste momento é visitado por centenas de pessoas pois fica a dois passos do museu do Tua, muito próximo da barragem que foi recentemente construída”.

Mas deixou este lugar para passar a viver em Baião, na freguesia de Santa Cruz do Douro. Reformado, passa grande parte dos seus dias a deambular próximo da Fundação Eça de Queiroz.

Na sua juventude, o ativismo corria-lhe nas veias. Começou por trabalhar na construção de estradas em Portugal mas, rapidamente, abandonou o país por achar que aqueles salários não eram para ele. Primeiro testou um lugar mais próximo, a Madeira. Mas aí não era emigrante? Sim, considera que sim. Ir até à Madeira, em 1976, era uma distância considerável e uma realidade de vida distinta. Tanto como se estivesse num país vizinho de Portugal. As comunicações faziam-se por cartas e isso aumentava as saudades de quem, aos 28 anos, deixou tudo o que tinha para trás.

Aprendeu a saber lidar com a distância e o dinheiro que ganhava ao final do mês era melhor do que quando estava por Baião. Aos 34 anos, decidiu partir rumo ao Iraque. Por lá permaneceu apenas seis meses. Pode parecer pouco tempo mas, para Ademar Rodrigues, pareceram séculos. Presenciou os momentos de guerra no Iraque e as dificuldades em viver neste país começaram a fazer-se sentir. Deixou Baião para procurar um lugar melhor, mas até fome sentiu. As dificuldades em alimentar-se e em termos de saúde eram uma realidade diária que persistiu durante seis meses.

Mas tudo mudou quando tomou a decisão de partir. Deixou o Iraque, a fome e a guerra para trás e entregou-se de corpo e alma ao país que diz ser “a segunda pátria”.

Aos 37 anos estava finalmente no lugar certo, o Luxemburgo. Foi aqui que fez valer os seus direitos à reforma. A oportunidade de emigrar para este país surgiu através de um cunhado seu. Foi em 1987 trabalhar para a Soludec. Começou por desempenhar funções como armador de ferro, nas obras da alfândega de Wasserbillig. Mas com a sua vasta experiência, passou a maquinista.

O trabalho corria-lhe bem, mas nem por isso Ademar Rodrigues considera que a vida de emigrante não foi fácil. “Quando se sai para trabalhar fora do nosso país é sempre doloroso, quer para quem vai, quer para quem fica”, refere.

Também Ademar deixou para trás a sua esposa, os seus filhos. Toda a sua família estava em Baião, enquanto Ademar estava a longos quilómetros de distância. E, ao contrário daquilo que é ser emigrante agora, nesta altura a comunicação era difícil. Não havia redes sociais, nem o Skype. Eram apenas algumas chamadas nas centrais. Ademar conta que a sua esposa ficava à espera da hora em que poderia voltar a ouvir a voz do seu amado. Assim como os filhos que, cheios de saudades, ansiavam por poder partilhar as suas aventuras com o seu progenitor.

“Quando se chega é de facto diferente pois a alegria da chegada a casa, em ver quem mais amamos e os filhos também, é um grande motivo de alegria. Ganha-se outra vida”, disse enquanto lançava um olhar para a sua esposa de quem sabe, mais do que nunca, o que é amar.

Em 1992, a sua mulher acompanhou-o ao Luxemburgo com o filho mais novo, de nove anos. As suas duas filhas tiveram de ficar em Portugal. Eram, assim, uma família dividida.

Mas o brilho dos seus olhos permaneceu ao recordar a sua chegada a membro da OGBL e, mais tarde, a presidente do Departamento de Imigrantes no Luxemburgo. Ademar Rodrigues começou por explicar que vivia num bairro na cidade de Luxemburgo, chamada Bonnevoie. Neste local, havia uma secção da OGBL, uma estrutura fundada em  1979, que hoje conta com quase 70.000 membros, um terço dos quais portugueses. A OGBL assume influência política e social no Luxemburgo e tem como compromisso a defesa dos interesses dos trabalhadores.

Ademar Rodrigues simpatizou com estes princípios e decidiu fazer parte da OGBL. Um dia, o presidente da Secção da OGBL de Bonnevoie, convidou Ademar a integrar a sua secção. Empenhou-se na sua nova função e arrecadou cada vez mais portugueses e italianos.

“Cheguei a vice-presidente da secção. Entretanto, o Eduardo Dias deu-me a ideia de me candidatar a presidente do Departamento dos Imigrantes, e foi nesse cargo que fiz dois mandatos, de 2002 a 2008”, contou orgulhoso do seu percurso.

Esta sua vontade em ser um defensor da pátria e dos direitos dos trabalhadores já é antiga. Rejeita a ligação de família a este espírito que tem. Admite antes que esta “fibra sindical” que tem adveio das reivindicações do 25 de abril, em Portugal. Isto porque, Ademar Rodrigues, chegou a Portugal em setembro de 1974, ano este em que se vivia um período de reivindicações sociais.

“Eu voltei à empresa onde trabalhava em Gaia e foi lá que fiz parte do grupo que fazia as reivindicações, até porque contávamos com o apoio dos capitães de Abril”, salientou.

Participou nas grandes manifestações que decorreram a seguir ao 25 de abril. Foi vice-presidente do sindicato da Construção Civil, quando ainda se chamava “Sindicato dos Oficiais Pedreiros Correlativos e Afins, que depois foi desmembrado e passou a designar-se Sindicato da Construção Civil da Zona Norte”, explicou.

Estabeleceu também ligação ao Movimento das Forças Armadas (MFA) através do RASP, o Regimento de Artilharia da Serra do Pilar.   Defendeu a pátria em 1972 quando foi obrigado, pelo regime fascista do Salazar. “Éramos obrigados a fazer a guerra ou então a fugir”, disse. Foi para a Guiné-Bissau, onde chegou a ser atacado, em 1973.

“Estava a dar sangue a um camarada, e eu estava ferido num pé, e esse meu camarada morreu poucas horas depois, esta é uma história má mas tenho muitas mais”, confessa.

A 31 de março de 1974 foi novamente atacado, no dia em que nasceu a sua filha mais velha. “Esse dia ficou-me na memória, fomos atacados dentro do acampamento”, frisou.

Estas são as memórias e a história de quem teve uma vida intensa e de quem, ainda hoje, continua a ser um lutador. Foi convidado por José Luís Carneiro, a ser membro da Assembleia Municipal. Dela faz parte desde 2009 e pretende continuar. Mas é pelas questões relacionadas com a emigração que afirma permanecer ligado à política e ao ativismo. “E enquanto tiver forças, vou continuar”.

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1 Comentário

  • Isabel Pinto
    24 Março, 2019, 23:15

    Por muito pequeno que seja este jornal, publicar um artigo com erros ortográficos é muito feio. Este texto, por muito interessante que seja, precisa de uma revisão. Aceitem esta como uma crítica construtiva de quem gosta de os ler.

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