De Bagagem pelo Mundo: Ricardo Seixas viajou de Amarante até à Catalunha onde viveu a luta pela independência

De Bagagem pelo Mundo: Ricardo Seixas viajou de Amarante até à Catalunha onde viveu a luta pela independência

Aos 21 anos, diz o povo que se tem o mundo pela frente e a melhor fase da vida para viver. Ricardo Seixas foi na conversa do ditado e, em 2004, deixou tudo o que tinha em Amarante para enveredar por uma grande aventura.

Era novo, solteiro “e bom rapaz”, por isso tinha o mundo por descobrir e conhecer outras culturas era um sonho que queria muito concretizar. Aliciado pelo irmão que estava na Catalunha a fazer a sua vida, Ricardo decidiu deixar o seu trabalho em Portugal, a vida ao lado dos seus pais, e ir ter com o seu irmão ao país vizinho.

Não foi a necessidade de um salário maior que o levou a fazer as malas, pois “não era rico mas também não estava mal colocado em Portugal”.

“Queria viajar, conhecer outras culturas, aprender outros idiomas e contactar com outras tradições”, explicou.

A Catalunha tornou-se assim o local de acolhimento deste jovem aventureiro. Tinha por lá família além do seu irmão, o que ia facilitar a sua adaptação. Não caiu neste território espanhol de “paraquedas”. Teve uma “aterragem” simples e o deslumbre por Espanha fê-lo ficar até hoje.

A condição em continuar a sua experiência por terras espanholas era “no mínimo, manter o nível de vida que tinha em Portugal pois mudar para pior não vale a pena”, garante. Nesta comunidade autónoma de Espanha, que nos últimos tempos tem lutado pela sua independência, na Catalunha encontrou “um bonito país, acolhedor, com gente simpática e hospitaleira e multicultural”.

“A gente daqui defende a sua cultura e aceita, obviamente, a dos outros. Há boas praias mas também com os Pirenéus por detrás, o que torna as paisagens um símbolo e que deixa qualquer um rendido”, frisou.

Mas a ideia de que ficaria diante destas paisagens simplesmente para passar uma temporada da sua juventude alterou-se. “Vim com a ideia de estar aqui uns anos, poupar muito e depois regressar a Amarante, mas o destino não quis”, garante.

Foi na extremidade leste da Península Ibérica que encontrou a sua namorada, que soube o que era amar. Hoje, essa mulher é a sua esposa. O amor era forte mas a ideia de voltar a Portugal era-o também. “A ideia no início do namoro era igual, tanto que compramos uma casa em Amarante”, disse.

A igreja de São Gonçalo, em Amarante, foi o lugar escolhido pelo casal para celebrar o matrimónio. Por terras amarantinas casaram com a meta de viverem na sua casa na terra que os viu nascer. No entanto, mais uma vez, Ricardo Seixas considera que o destino não quis que assim fosse. A sua mulher engravidou e nasceu o pequeno Nil e, até hoje, permanecem na Catalunha.

Educar o pequeno Nil longe de Amarante e de Portugal não foi encarado com um problema, até porque Ricardo Seixas diz que as condições de vida são diferentes e a educação também. “Em cada freguesia há, pro exemplo, quatro a cinco parques infantis para que eles possam brincar ao ar livre, com escorregas e várias outras atrações gratuitas. O governo dá um livro a cada casal quando o bebé nasce para que possamos apontar a história dele até que possam completá-lo sozinhos”, conta.

Mas salienta o facto de casa mãe ter direito a 16 semanas de baixa e o seu salário continuar a ser o mesmo, pago pelo governo, ao mesmo tempo que os pais têm direito a 15 dias. “Quando a mãe decide ir trabalhar nesse período, à parte de receber o salário igual, recebe ainda 100 euros todos os meses durante três anos, que são os descontos do IRS”, acrescenta. A creche é paga ao dia, com um valor a rondar os seis euros mas “funciona com escalões como em Portugal, há quem pague tudo ou nada”.

Ainda que goste de educar na Catalunha o seu filho confessa que sente saudades de quem deixou em Amarante, das irmãs e da sobrinha, “mas principalmente do afilhado e os pais”. Mas tal como outros emigrantes têm mencionado nesta rubrica, a comida que fazem nos países onde estão emigrados não é igual a Portugal. “Não é a mesma coisa, os ingredientes não são iguais”, disse Ricardo Seixas, salientando que sente saudade dos sabores da comida da sua terra natal.

“Sente-se a falta do rio, dos passeios de barco, até porque por aqui não há nada disso. As paisagens de Amarante davam-me alento, é uma cidade bonita. Há gente de cá que já visitou a minha terra e ficaram encantados”, constatou.

Mas voltar ao centro histórico da cidade e aos passeios rotineiros diante das paisagens amarantinas não está nos planos, pelo menos nos próximos tempos. A sua esposa abriu um salão de cabeleireiro e temem não ser a melhor altura para a mudança tendo em conta que têm um filho com quatro anos. “Mas, temos aí casa e não pensamos vendê-la, algum dia poderemos voltar”, assim espera Ricardo Seixas. O seu filho já sabe cantar parte do hino do Amarante Futebol Clube, o que deixa o pai babado.

Mas na Catalunha já viveu momentos muito intensos. Foi padrinho de casamento do seu irmão, viveu “fervorosamente a final no Euro 2004”, foi brindado com surpresas de visitas da sua irmã mais nova. Foi por esta terra espanhola que se apaixonou. Mas falar em momentos marcantes exige falar “no tema político que está emocionante”.

“O sistema político é diferente de Portugal pois aqui está tudo dividido em regiões. Há coisas que são competências do Estado Central e outras dos governantes das regiões. Mas os impostos vão para o Estado Central e depois é realizada a distribuição, sendo que a Catalunha é a que mais dá e, por isso, quer receber mais”, contou Ricardo Seixas, mostrando-se interessado pela política.

Querendo a Catalunha a independência, por considerar que reúne as condições necessárias para tal, o clima de tensão instalou-se. “O governo não respeitou os costumes, as tradições, o idioma da Catalunha. Os catalães respeitam os outros mas defendem com ‘unhas e dentes’ o que é seu”, frisou. Ricardo Seixas confessa estar admirado com “a vontade de defesa dos catalães dos seus direitos e sem utilizarem a violência”.

Espectacular vídeo…. pell de gallina. COMPARTIU.

Publicado por Democracia O Dictadura em Sábado, 16 de fevereiro de 2019

 

Ainda com toda esta instabilidade, Ricardo admite que faz a sua vida com a maior normalidade possível. “A minha esposa acabou de abrir um negócio e todos trabalhamos, é como se estivéssemos em Portugal”. A violência não é, de todo, uma realidade para esta família amarantina. “A ideia que se passa é que isto anda tudo em guerra porque a comunicação social, menos a RTP, vive a dar notícias vindas de agências, tipo a EFE e mostram o que lhes passam mas não é assim”, garantiu. Considera que a imagem de violência na Catalunha é uma construção da realidade e, por isso, afirma que caso saia deste país o fará por amor à sua terra natal, Amarante, e não pela luta pela independência da Catalunha.

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