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De Bagagem pelo Mundo: Em 1987 Sandra emigrou com os pais para a Suíça e em 2016 regressou com a sua nova família

De Bagagem pelo Mundo: Em 1987 Sandra emigrou com os pais para a Suíça e em 2016 regressou com a sua nova família

Sandra Caetano viveu até aos seus três anos de idade em Resende. Os seus pais, movidos pelas dificuldades económicas, tiveram de emigrar até à Suíça. Era 1987/ 1988 – já não sabem precisar – quando a sua mãe partiu mergulhada em lágrimas de quem deixava uma filha em terra – a Sandra, que ficou com a sua avó enquanto arranjavam “casa e as condições mínimas para viver”.

Grávida, a mãe de Sandra Caetano não tinha outra solução à vista. Ficar não garantia qualidade de vida, muito menos com mais uma criança prestes a nascer. Enquanto partiam rumo a outro país, esta família limpava as por aqueles que deixavam para trás. Pela janela da viatura o pai e a mãe de Sandra não conseguiam ver nada. Os olhos desta família estavam turvos da incerteza da vida que iam encontrar na Suíça. “O meu pai contava que o maior medo era chegar e não encontrar o irmão”, explica.

“Mas recordo-me que eles só telefonavam uma vez por semana. Lembro-me de a minha mãe dizer que o mais difícil era a língua e estar longe da família”, puxa do baú das recordações Sandra Caetano.

Na caixa das fotografias existe ainda a uma de Sandra com a sua avó, que foi tirada “para mandar aos pais”. Depois de remexer nestas recordações, Sandra encontrou uma fotografia que ilustra este período da sua vida, já por terras suíças ao lado da sua mãe.

Foi assim que Sandra Caetano ouviu contar a história já mais crescida. Foi um momento que marcou os seus pais e a conversa vinha à tona muitas vezes. Por terras suíças Sandra aprendeu a caminhar sem tantos percalços e a emigração pautou o caminho que percorreu mais tarde, visto que algumas “pedras” se foram colocando no seu caminho.

Pela Suíça encontrou mais familiares que também foram obrigados a sair do território português. Foi fazendo amigos, falando o francês e usufruindo do frio que por ali se fazia que a colocou na patinagem. “Era uma coisa que eu gostava de fazer em criança, a neve era muita e dava uma sensação muito boa”, vincou.

Fora da patinagem, Sandra Caetano lembra-se que saía poucas vezes de casa. “Não saíamos muito, exceto para as compras semanais e ir às casas de convívio de portugueses, mas também muito raramente”, contou. Mas os poucos momentos que por lá viveu ficaram-lhe na memória. “Faziam festas típicas portuguesas, encontros de ranchos folclóricos, vinham artistas portugueses, fazíamos o magusto”, disse, considerando que naquela época se dava mais valor “à cultura tradicional portuguesa”.

Aos 13 anos a vida da sua família estava erguida e decidiram voltar para Portugal. Foi viver desta vez para o Luso, na Mealhada. O amor floresceu na sua vida mas o cenário que afastou os seus pais de Resende quando Sandra ainda era pequena repetiu-se. Em 2016 pegou na sua filha ao colo e fez as malas. Sandra e o marido não tinham mais como viver em Portugal. O dinheiro não dava para viver, só sobreviver, “e o patrão deixou de pagar” ao seu marido, o que acarretou ainda mais dificuldades.

Sabiam que não tinham nada a perder. A emigração já era um ato repetido na vida desta mulher e isso fazia com que o medo fosse mais pequeno. Sabia que o mais importante era dar à sua filha uma educação que contasse com o apoio do pai e, por isso, ficarem dois (Sandra e a filha) e ir só um (o seu marido) não era uma opção.

Chegaram a França no dia 28 agosto 2016. Instalaram-se em Bordeaux onde começaram a criar as suas rotinas de vida. Embora em Portugal trabalhasse numa fábrica, Sandra Caetano foi para as limpezas. As condições de vida foram, aos poucos e poucos, melhorando e as pedras afastando-se do seu caminho.

As festas portuguesas foram ajudando na adaptação junto da comunidade portuguesa que existe em Bordeaux. Há jantares de convívio onde a língua portuguesa se ouve por toda a parte. Os produtos portugueses são levados à mesa. O bacalhau não fica para trás nem o cozido à portuguesa. Os paladares vão estabelecendo a ponte entre França e Portugal.

Mas por terras francesas também se mantêm vivas tradições portuguesas. A desfolhada é feita naquela comunidade relembrando os tempos em que o faziam nas suas terras. Os ranchos vão animando e espalhando a música popular que une todos os portugueses num bailarico que dura a noite inteira.

“Devem estar a fazer em breve uma feirinha com produtos portugueses com barraquinha. Vem gente de Portugal vender os seu produtos aqui, é muito giro”, disse Sandra Caetano.

Sandra Caetano diz que “tem tudo à porta de casa”. O carro está sempre na garagem pois tudo se consegue fazer a pé de tão pertinho que é. “Tenho maior poder de compra, vamos mais vezes ao cinema, por exemplo”, e isso faz com que goste da vida que tem em França.

Vivemos uma vida mais desafogada sem estar sempre a pensar se vou ter dinheiro para pagar as contas amanhã, explica.

Por esse motivo, Sandra afirma que não tem grandes saudades da sua terra natal. Sente apenas “saudades da família”.  “Dá uma certa nostalgia quando vemos fotos no Facebook daquela festa com amigos que não podemos ir, das festas da aldeia”, referiu, contrapondo com o facto de também em Bordeaux fazer festas com os amigos que foi construindo, embora “seja um pouco diferente das de Portugal”.

Todos os dias deixa a filha na escola. Pega no autocarro e dirige-se às casas dos patrões que nem chega a ver. “Tenho as chaves, entro e saio e as vezes nem vejo os patrões”, explica. Limpa uma casa de manhã e outra à tarde. A noite é dedicada à família que se orgulha de ter construído. A sua filha em quatro meses aprendeu a falar francês. Demorou mais tempo Sandra Caetano a aprender português quando regressou de estar emigrada na Suiça, recorda.

Os três regressam pelo verão. Costuma vir a Portugal duas vezes por ano, em Agosto e no Natal. Mas voltar a viver em Portugal não está nos seus planos, pelo menos para já.

“Eu digo sempre que sim, mas não por agora! Depois vai depender também da filhota porque eu não imagino voltar a Portugal sem ela”.

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