De Bagagem pelo Mundo: Fábio Santos deixou Cinfães pelas vindimas e acabou a jogar na 1.º divisão belga

De Bagagem pelo Mundo: Fábio Santos deixou Cinfães pelas vindimas e acabou a jogar na 1.º divisão belga

Fábio Santos, natural de Souselo, uma freguesia de Cinfães, não sabia que a bola que, desde cedo, começou a rolar nos pés um dia o iria colocar em grandes equipas de futsal pelo mundo fora.

Em criança, não tinha problemas em jogar descalço, na rua, no Largo da Feira do Couto, em Cinfães. O convívio com os outros meninos fazia-lhe bem e o gosto pelo desporto corria-lhe nas veias.

Mais tarde, pensava que era apenas mais um adolescente que sonhava em jogar numa grande equipa. O seu irmão tinha a mesma paixão e ambição e, como irmão mais novo, Fábio Santos olhava-o como um ídolo que tinha como exemplo. “Chegava a casa preto, todo sujo da terra, que a minha mãe era obrigada a dar-me banho de horas, quase que era preciso lixivia para tirar aquelas nodoas da roupa”, explica com um sorriso de quem recorda as suas origens.

Aos 12 anos, já estava a ser encaminhado por alguém que toma por um “grande amigo”, o Inácio, que hoje é professor na Madeira e que, naquela altura, admirou as suas qualidades e o levou a treinar para o FC Porto. “Foi uma experiência muito boa, tive alguém no mundo do futebol”, mas a sua mãe, fanática pelo SL Benfica, negava que o seu filho fosse jogar para o clube rival.

Mas com o apoio incondicional do seu avô, que todas as manhãs o ia ver jogar, o sonho foi erguendo-se e ficando cada vez mais sólido e perto da realidade. “Que Deus o tenha em eterno descanso. Para além de meu avô foi um pai para mim visto que os meus pais se separaram era eu ainda uma criança!”, relata com amargura na voz de quem ainda se lembra da tristeza que esta fase de vida lhe trouxe.

Com todo este percurso, Fábio Santos foi crescendo ao lado da bola que não lhe dava dinheiro. Passou por vários clubes, como o Lapa, uma filial do FC Porto, pelo CCR S.Martinho, pelo Souselo FC e, mais tarde, pelo CD Cinfães. Durante 11 anos foi atleta de futebol.

No entanto, viu-se obrigado aos 21 anos a abandonar esta modalidade para enveredar pelo futsal. Mas antes desta troca, ainda no campo do SC Paivense, Fábio Santos conheceu uma moça que gritava pelo clube, de olhos castanhos, que o observara e lançara um sorriso que, até hoje, o prendeu.

Já se conheciam pelo Hi5, rede social que os mais novos até já desconhecem. “Foi no final do jogo que a Rita [atual mulher de Fábio] me conheceu, através de uma prima minha. De um encontro perfeitamente normal”, explica. Mas a Rita nunca mais saiu da cabeça do jogador e, após vários cafés, o amor entrou-lhe no coração “e foi a culpada de ter mudado a vida, para melhor”, garante.

A vida deu uma volta de 360 graus quando Fábio teve de deixar a bola para emigrar, pois a sua namorada estava grávida da sua primeira filha. “Foi o clique para a mudança e soube que era a altura certa de dar um novo rumo e tornar-me um homem”, frisou.

 

“Mais uma vês o futebol levou-me a conhecer a mulher que tenho hoje e a ter a linda família que construímos juntos”, salientou Fábio Santos.

 

Neste momento, a emigração foi uma fase dura. Começou por ir cinco anos para França para trabalhar nas vindimas. Embora as paisagens fossem belas, o trabalho era duro e as saudades da mulher e do futebol era imensas. Mais tarde, passou para Espanha e, posteriormente, para a Bélgica. Aqui integrou a equipa Juventude Portuguesa de Bruxelas, onde dava uns toques na bola. Mais tarde um amigo seu sentiu que estava na hora de Fábio Santos entrar numa equipa onde o nível de exigência fosse ainda maior.

Pela Bélgica, viu uma grande oportunidade bater-lhe à porta: “Tive o prazer de jogar futsal numa equipa da primeira divisão nacional, uma aventura que marcou a minha vida para sempre”, recorda. Ingressou na CB FUTSAL JETTE BXL CAP, onde foi feliz e descobriu que aquele era o sonho que teria de lutar com todas as forças.

Embora não fosse profissional de futsal, a Bélgica deu-lhe uma oportunidade de aperfeiçoar as suas técnicas e marcar muitos golos. Com camisola de outro clube que não a portuguesa, o certo é que foi um marco importante no seu currículo. “Mas foi muito difícil porque o meu trabalho era muito pesado [construção civil] e tinha de conciliar com os treinos à noite e com o jogo à sexta-feira”, disse.

Jogar “ao mais alto nível” foi uma experiência que sabe que seria difícil de encontrar em Portugal com a falta de experiência em grandes clubes que tinha com aquela idade. Este foi o mote para o alcance para o sucesso.

Jogar na primeira divisão deu-lhe muito, mas tirou-lhe outro tanto. Fábio Santos deixou para trás o crescimento dos seus filhos, os dias de amor intenso com a sua cara-metade, “e isso são coisas que não têm preço, visto que são as pessoas” mais importantes da sua vida.

A sua relação amorosa não estava no seu melhor “mas emigrar foi uma prova de reconquista da família” que tem hoje. “Confesso que muitas das vezes ficava no aeroporto a chorar, enquanto esperava o avião para ir pra Bélgica, mas nem tudo é mau, claro”, explica.

Agora, aos 31 anos, Fábio Santos regressou a Portugal, local que mais o marcou na sua carreira e na sua vida pessoal. Tratava-se do país onde foi “muito acarinhado por amigos, colegas e treinadores”, como no CD Cinfães. Foi aqui que um golo lhe valeu a subida de divisão do AD Casal aos últimos dois segundos para o final do jogo.

Na última época deixou a emigração para jogar por uma equipa de Castelo de Paiva, o  ADC Bairros, que agora está prestes a subir à segunda divisão nacional. Pelo seu país recusou uma proposta há meses que lhe daria uma nova oportunidade de emigrar e jogar ao mais alto nível, desta vez em Itália e viver exclusivamente do futsal, algo que em Portugal não consegue. “Mas optei por ficar cá este ano, pois neste momento tenho a vida estável, estou junto da família e não há dinheiro nenhum no mundo que pague a presença da família”, explanou.

Embora a jogar pelo ADC Bairros não lhe dê o sustento necessário para viver, Fábio Silva afirma que aqui também há bons planteis, boas equipas e com qualidade de jogo.

“Apesar de não ter os meus 20 anos, ainda tenho um enorme prazer entrar na quadra e fazer o que mais amo na vida, tocar na redondinha”, brinca.

Hoje sente-se grato por ter entrado no avião, por todas as lágrimas que deitara enquanto subia as escadas da partida, pois aumentaram a sua bagagem, marcaram a sua evolução pessoal e, sobretudo, profissional. Mas mais grato ainda afirma sentir-se face a quem o apoio, nomeadamente à família, aos seus treinadores e misters, assim como os clubes por onde passou.

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