De Bagagem pelo Mundo: Para a Bélgica com Paredes no coração e filha de oito anos na mão

De Bagagem pelo Mundo: Para a Bélgica com Paredes no coração e filha de oito anos na mão

Daniela Nunes viveu 28 anos em Paredes. Era a cidade onde cresceu, aprendeu a ler, a escrever, a ser feliz. Mais tarde aprendeu a amar e teve uma filha fruto desse amor. Também em Paredes a filha nasceu e cresceu mas, aos oito anos, a vida obrigou a fazer as malas e partir.

A filha teve de deixar a escola e os amigos que tinha feito nos primeiros anos de escola. Mas a sua mãe não teve outra hipótese se não partir. São muitos os que têm de obrigar os filhos a adaptarem-se a um novo país, um novo idioma, a novas pessoas. E Daniela Nunes foi mais um desses casos.

Em 2011 deixam Paredes e a família que por ali ficou a ver as malas a entrarem no carro que os levara ao aeroporto. As lágrimas surgiram ainda durante todo o processo que antecedeu este dia de despedida. Era um “até já!” mas a verdade é que esse dia já foi há oito anos e, desde então, Daniela e a sua família deixaram de ter apenas Portugal no seu coração e passaram a ter a Bélgica a integrá-lo.

Em Paredes tinha trabalho como técnica administrativa na Tabacaria Ruão. “Mais tarde, a falta de trabalho obrigou-me a procurar uma vida melhor para mim e para a minha filha”, explicou Daniela Nunes. No início, a vida parecia tudo menos “melhor”. A nova língua falada era um obstáculo, o mau tempo e a neve eram comuns na maioria dos dias “e tinha de conviver com mais de 100 etnias diferentes”.

“Chorei durante dias a fim, tinha deixado a minha casa e as minhas coisas pois só consegui levar comigo uma mala de 20 quilos”. A bagagem levou pouca coisa mas entre ela havia uma grande “dose de esperança de encontrar uma vida melhor”. Mas nem assim desfez a mala.

“A mala nesse ano não foi desfeita porque queríamos voltar a Portugal, à nossa casa, para o calor da nossa família”, confessa.

Embora não soubesse o que lhe esperada por terras belgas, a instabilidade ainda esteve patente durante um ano. “A minha filha não se adaptava à escola e sentíamos falta de tudo o que tínhamos deixado para trás”, conta.

A filha de Daniela sofreu de discriminação durante muito tempo “porque não sabia falar a língua deles”. As diferenças da criança portuguesa entre as belgas fez com que fosse vítima de bullying o que tornou aquela mudança de vida ainda mais dolorosa para esta mãe. Sentia que, por não ter condições de vida em Portugal e ter sido obrigada a emigrar que a filha estava a passar por “um mau bocado”. “Mas eu estava sempre presente e nunca deixei que nada lhe acontecesse porque fui falar diretamente com a direção da escola”, esclarece.

O comportamento das pessoas que viviam naquela nova cidade eram diferentes. “Incomodava-me muito que as pessoas olhassem de lado por falarmos mal o francês e, também, do lixo que deixam pelas ruas da cidade”, conta.

A muito custo, os dias foram aos poucos e poucos melhorando. As adversidades apaziguadas pelas belas paisagens que a Bélgica lhe concedia. O dinheiro ao final do mês reforçava a ideia de que a adaptação ao novo país tinha de surgir para que a vida melhorasse. A alimentar a esperança estava a ânsia de voltar a viver sobre o céu azul, o calor dos dias de verão e o mar de Portugal.

A filha foi fazendo amigos e hoje, com 16 anos, já sabe falar quatro línguas. “A educação por cá é bem melhor, assim como o sistema de saúde”, frisou Daniela Nunes. As portas foram-se abrindo pelo país que as acolheu. Embora financeiramente compense, Daniela conta que a sua rotina “é muito difícil”. “Trabalho de segunda a sábado, começo as 5 horas da manhã e trabalho até às 21 horas. Durante o dia tenho uma pausa de duas horas e ao sábado só trabalho de manhã”, explanou.

Mas é ao domingo que tudo se mostra bem mais tranquilo. Ao sábado à tarde o tempo é dedicado à família. Umas vezes vão ao shopping, almoçam por lá, e o cinema é já um hábito. Ao domingo o calor da casa é predominante. “Aos domingos está tudo fechado, então ficamos em casa em família e no descanso para recuperar o fôlego e enfrentar mais uma semana de luta”, esclarece.

Menos frequente é a ida a Portugal. Se no início iam todos os meses visitar a família e usufruir das temperaturas mais amenas, agora só o fazem duas vezes por ano. Esta família foi-se habituando à nova vida que se colocou pela frente. Mas a vontade de voltar à terra natal é enorme. Mas Daniela Nunes tem noção de que essa ida pode ficar adiada. “A minha filha está quase a fazer 16 anos e se ela casar com alguém daqui a minha vida será aqui e aí no meu Portugal”, disse.

Voltar a Portugal não é certo mas as saudades da comida tradicional do seu país são muitas. Também sente falta de cultivar nos campos como fazia em Paredes. “Portugal é o meu país, por ele choro muitas vezes, sinto saudades. É uma saudade que não pode ser explicada mas sentida”, conclui, com um sentimento de esperança de voltar aos campos, às paisagens e aos cheiros e sabores portugueses assim que seja possível.

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1 Comentário

  • Antonio Pereira
    4 Fevereiro, 2019, 20:02

    Daniela Nunes,
    Em 1987 tive a mesma ideia que a sua, voei até á Suíça e senti todas as adversidades que descreve ao jornal a verdade.
    Mas, temos uma vantagem!! Somos Portugueses, humildes e acabamos por ser bem acolhidos, adaptámo-nos , respeitamos e vemos que nós conseguimos integrar, a nós e aos nossos!!!
    Vai ver que tudo vai correr bem e para si, sua filha e toda a família eu desejo tudo que de melhor exista na vida e continue a lutar com respeito por si, por Portugal e pelo país que a acolhe.
    Um abraço.

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