De Bagagem pelo Mundo: “Saí de Penafiel depois de querer comprar pão e não ter dinheiro”

De Bagagem pelo Mundo: “Saí de Penafiel depois de querer comprar pão e não ter dinheiro”

Miguel Martins, natural de Croca, em Penafiel, sentiu a crise mesmo antes dela chegar. Tirou licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas – Variante de Estudos Franceses e Alemães – pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Mas não foi o canudo que lhe valeu um bom salário ou melhores condições de trabalho.

Na verdade, nunca teve oportunidade de emprego na sua área de formação académica mas, com a energia que a juventude ainda lhe dava, arregaçou as mangas e nunca teve problema algum em fazer outra coisa fora da área.

Porém, dava por si a fazer 16 horas de trabalho em vez de oito e a remuneração ao final do mês ser sempre a mesma. À sua volta via pessoas que, mesmo sem especialização profissional, eram mais recompensadas.

Todo este clima levou a um estado de descontentamento com aquilo que fazia e com o saldo da sua conta bancária depois de muito esforço – tinha-se dedicado durante três anos para concluir os estudos, onde queimou “muitas pestanas” e, depois, trabalhava horas a fim sem compensação.

O alojamento no Porto em 2005 – trabalhou num call-center e, depois, como rececionista numa residencial – era ainda mais elevado do que na sua cidade Natal, isto é, Penafiel. Cenário que hoje continua igual e os valores ainda mais elevados.

Um dia, Miguel Martins tinha terminado mais um dia de trabalho desgastante quando se dirigiu a uma padaria no Porto. Quando colocou a mão no bolso para pagar o pão que pediu, este estava vazio. “Percebi que não tinha dinheiro suficiente para comprar um único pão. Esse foi o momento em que decidi que tinha de tomar uma atitude”, explica com amargura na voz.

Foi então que se fartou de viver perante tal precariedade e fez as malas. Embora a sua licenciatura nunca tivesse servido para ter um bom trabalho em Portugal, serviu pelo menos para facilitar o processo de emigração. “Tendo a minha licenciatura sido feita em francês e alemão, os primeiros países que me ocorreram foram a França e a Alemanha”, disse. Porém, acabou por decidir ir antes para os Países Baixos. Também tinha estudado o neerlandês durante o curso e, por isso, achou que “tentar viver nos Países Baixos durante algum tempo para aperfeiçoar o idioma”.

Saiu de Portugal apenas com o dinheiro que lhe permitia realizar uma passagem: a de ida para os Países Baixos. Tal facto impedia-o de voltar rapidamente caso não gostasse, o que causou ainda mais instabilidade e insegurança neste passo que estava a dar ao colocar o pé e a bagagem no avião.

Não fazia ideia de como eram os Países Baixos e também não tinha um trabalho à sua espera. A garantia de que ia conseguir encontrar um lugar para ganhar dinheiro para comprar pão – e reverter o cenário que viveu na padaria no Porto.

“O risco foi bastante grande, pois se esta aventura corresse mal eu não teria sequer dinheiro para regressar”, conta. Em maio de 2005 fez a mudança mas não viu “o sol durante meses”. A palavra “frio” fez parte do seu quotidiano. Por um lado, Miguel sentia que as pessoas daquele novo país era “muito mais frias” e isso alastrou a falta de calor humano por um longo período de tempo. Fazer amigos era uma missão quase impossível pela personalidade dos habitantes dos Países Baixos e tudo isso tornou a sua adaptação “muito mais difícil”.

“Felizmente, em poucas semanas consegui o meu primeiro emprego, o que me deu alguma segurança. E, aos poucos, a situação  foi melhorando”, recorda.

Depois desse choque inicial, acabou por se ir adaptando às diferenças culturais. “Neste momento, posso dizer que estou muito satisfeito com a minha vida aqui. É um país de oportunidades e de liberdade. Continuo apenas a sentir falta de calor humano. Nisso ficam muito atrás dos portugueses”, explica.

Nos últimos três anos, tem vindo a tentar vingar no mundo do entretenimento, nomeadamente como ator. Porém, as oportunidades que teve até ao momento não foram tão grandes quanto a sua ambição. Mas o certo é que tem participado em anúncios publicitários, videoclipes e até em filmes.

Conseguiu ser também um dos finalistas do título de Mister Senior Netherlands – concurso semelhante ao de Mister Portugal, mas para holandeses- destinado a pessoas com mais de 30 anos.

“Em anúncios publicitários tive alguns papéis principais. No entanto, no que diz respeito a filmes, as minhas participações foram muito pequenas e principalmente sem texto”, frisou. No entanto, em 2018 uma nova oportunidade bateu à sua porta e acabou por desempenhar um papel com “muito texto”, tal como “aquilo a que estava habituado no dias de teatro amador em Portugal”.

Deixou o papel de “bonzinho” para o de “vilão” da história. Papel que contrapõe com a sua história de emigração. Deixou de ter uma vida má para uma vida boa, onde o sucesso tem acompanhado o esforço que faz e a dedicação e profissionalismo que diz depositar em tudo o que faz.

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