Menino Jesus com “dentinhos” faz as delícias dos idosos e combate o isolamento

Menino Jesus com “dentinhos” faz as delícias dos idosos e combate o isolamento

Uma figura de um menino jesus com dentinhos tem percorrido as casas de mais de 100 idosos que, nesta época do ano, veem os seus dias mais alegres aquando da visita dos Ministros da Comunhão.

É assim há três anos, desde que o padre André Machado instituiu os Ministros da Comunhão nas suas paróquias. Ao todo são três: Fornos, Bairros e Real, freguesias que se inserem no concelho de Castelo de Paiva.

O isolamento é uma realidade que permanece em casa de mais de uma centena de idosos. Estes números dizem respeito os casos já conhecidos, mas o padre acredita que existem muitos mais.

Entre o Natal e o Ano Novo, o menino Jesus da paróquia vai de casa em casa de cada um desses idosos, que pela falta de saúde e mobilidade, deixaram de fazer várias atividades do seu quotidiano. Na impossibilidade de continuarem a ir até aos lugares de culto, a fé entra-lhes em casa com a chegada do menino Jesus.

“A Dona Mariana, de 100 anos, não quer um menino Jesus qualquer”, o lado maternal continua aceso e, por isso, mal viu um menino Jesus “gordinho e com dentinhos, foi uma alegria”. O padre recorda este momento como um dos mais “engraçados” e que o obrigou a arranjar para a paróquia de Bairros, um menino Jesus com “dentinhos para fazer a centenária sorrir”.

Desde então, o menino Jesus já viu muitas demonstrações de carinho. Uns idosos embalam-no como se fosse uma criança, outros pedem mesmo silêncio para que ele possa fazer a sua sesta como um bebé e, outros, “dão beijinhos e miminhos como se não se tratasse apenas de um objeto, mas antes de uma criança”, esclareceu o padre com um sentimento de dever cumprido por ter instituído este ritual nas suas paróquias.

O ritual tem levado o ânimo e a fé a várias casas. “A fé é como uma filosofia de vida, seguimo-la para mantermos a esperança, termos um motivo para acordarmos todos os dias”, disse. É esse o objetivo que move os Ministros da Comunhão a dispensarem várias horas entre o Natal e o Ano Novo. “Para alguns, chega a ser a única coisa que diferencia o Natal do resto dos dias do ano”, disse.

Mas esta prática é mais do que um ato de fé. Em lugares como Real, a população é, na sua maioria, envelhecida e, por isso, os idosos fazem companhia uns aos outros. Durante todo o ano, os Ministros da Comunhão vão dar a comungar de porta em porta. Durante essas visitas, já se depararam com situações “demasiado complicadas, que requerem uma preparação física e psicológica muito intensa”.

“Antes do incêndio de 15 de outubro de 2017, tínhamos ido visitar um senhor de 96 anos que sempre viveu sozinho. A casa estava em muito mau estado e sentimos que tínhamos de fazer alguma coisa”, contou o pároco. Alertaram o departamento de Ação Social da Câmara Municipal que o retirou  da sua habitação e colocou num centro de acolhimento. “No dia seguinte, o incêndio consumiu a sua habitação, temos a certeza que lhe salvamos a vida porque com a mobilidade reduzida que ele tinha, nunca conseguiria fugir das chamas”, esclareceu.

Os próprios idosos vão avisando do estado dos seus vizinhos. “Eles dizem-nos que já não veem o vizinho do lado há alguns dias, quando vamos averiguar, por vezes o cenário não é o que desejávamos”, disse com amargura o padre André Machado.

Mas este processo de visita às casas dos idosos não tem sido fácil para o padre, que frisou que viver a fé não é estar sempre a falar em nome de Deus, “mas antes ter atos que nos fazem lembrar dele”. Muitos dos idosos encontram-se em casa de familiares. No entanto, entrar na casa dos cuidadores nem sempre é uma tarefa fácil.

“Damos conta de que há quem não queira a nossa visita aos domingos de manhã porque não tem a casa arrumada. Outros, associam a visita de um padre à antecipação da morte do seu idoso, porque antigamente o padre só visitava estavam para morrer”, constatou. Mas há também quem tema que a visita semanal serve “para manipular os idosos a fim de lhe arrancarmos alguma coisa no testamento”, frisou o padre.

“A fé não mudou mas a forma de vivê-la tem-se alterado” mas, para o padre, há ainda muitas ideias pré-concebidas que invalidam práticas de combate ao isolamento, como a visita aos idosos quando os mesmos deixam de o poder fazer pelo próprio pé.

“É um trabalho duro, que requer muito investimento da nossa parte, é preciso mudar-se mentes e isso é um processo longo”, contou. No entanto, quer o padre André Machado, quer os seus ministros, afirmam que a experiência é muito enriquecedora quando levada a cabo. “Os momentos são muitos e ficamos pessoas melhores, é um crescimento nosso também”, admitiu Márcia Cardoso, uma das Ministras da Comunhão na paróquia de Bairros.

No domingo de Reis a visita volta a surgir e os sorrisos dos idosos são muitos. “Talvez se não fosse esta visita, os idosos que vivem sozinhos nem tinham noção do dia que é”, disse o padre André Machado.

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