Reportagem: Conheça os rostos das vítimas do incêndio em Castelo de Paiva

Dezenas de casas ardidas, mais de 200 pessoas retiradas para um pavilhão, fábricas destruídas e pessoas refugiadas em cafés ou a fugir por estradas em chamas.

Foi este o resultado de um fogo que destruiu cerca de 80% do concelho de Castelo de Paiva. “Aquilo que nos atingiu foi uma coisa impensável. Nem no pior filme de terror imaginávamos o que aconteceu”, afirmou o autarca Gonçalo Rocha, que garante estarem “cerca de 200 postos de trabalho em perigo”.

Gonçalo Rocha

Gonçalo Rocha

“Em 37 anos como bombeiro nunca vi tal”, completou o comandante Joaquim Rodrigues, que liderou os 120 operacionais que, desde a tarde de domingo até ao final desta segunda-feira, combateram um fogo que alastrou de Vale de Cambra e atravessou Arouca antes de entrar por Pedorido.

Joaquim Rodrigues

Joaquim Rodrigues

Já Pedro Pereira, madeireiro, garante que foi tudo muito rápido. “Tentei, sozinho, tirar os carros do estaleiro, mas foi impossível retirá-los todos. Em pouco tempo, dois carros, uma carrinha, um camião, dois tratores e um reboque começaram a arder”, recorda.

Pedro Pereira

Pedro Pereira

Manuel Soares, dono de uma carpintaria, descreve o mesmo cenário. “Estava, com a minha família, a ver o fogo ao longe e, em minutos, ele chegou à fábrica. Tivemos de fugir pela estrada já rodeada de chamas”, afirma quem teve, entre madeira, equipamento, viaturas ardidas e instalações destruídas, um prejuízo a rondar os 500 mil euros.

Manuel Soares

Manuel Soares

“Arderam as nossas roupas, eletrodomésticos, a moto e até os medicamentos. Ficámos sem nada”, asseguram, igualmente, Conceição Silva e António Pereira, casal que, na noite de domingo, não conseguiu chegar a casa, em São Pedro de Paraíso. “Não nos deixaram passar, porque estava tudo a arder”, dizem. Por isso, só na manhã desta segunda-feira é que confirmaram que a casa onde viviam há largos anos já não existia. “Só ficaram as paredes e sobreviveram umas galinhas e um gato”, frisa Conceição que, juntamente com o companheiro, foi realojada numas instalações da Associação dos Familiares das Vítimas de Entre-os-Rios, apenas com “a roupa do corpo”.

António Pereira e Conceição Silva

António Pereira e Conceição Silva

Apesar de estar ao serviço da população, também esta instituição, criada depois de uma tragédia que vitimou 59 pessoas, foi afetada pelo mar de chamas que atacou Castelo de Paiva e, na noite de domingo, o seu centro de acolhimento temporário teve de ser evacuado. “Foram momentos dramáticos”, diz Adélia Moreira. Esta funcionária ainda tentou, com a ajuda de 12 crianças que ali estão institucionalizadas, apagar os focos de fogo que começaram no jardim.

Mas, devido aos “remoinhos de vento cheios de faúlhas incandescentes”, a solução foi retirar os miúdos para o centro da vila. “Fugimos nos carros e tivemos de atravessar pelo meio do incêndio. A estrada estava rodeada de chamas, mas já não podíamos voltar”, conta.

Adélia e as 12 crianças passaram a noite, tal como mais de duas centenas de paivenses, no pavilhão municipal. Na manhã de segunda-feira, todos regressaram a casa.

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