Marcador de Livros: Os Bebés de Auschwitz

Marcador de Livros: Os Bebés de Auschwitz
Título: Os Bebés de Auschwitz
Autor: Wendy Holden
Editor: Vogais

Páginas: 416

Sinopse:
Entre as vítimas do Holocausto enviadas para Auschwitz em 1944, três mulheres levavam consigo um segredo quando passaram pelos portões do infame campo de concentração.
Priska, Rachel e Anka estavam grávidas de poucas semanas, enfrentando um destino incerto longe dos seus maridos. Sozinhas, assustadas, e após terem perdido tantos familiares às mãos dos nazis, sentiam-se determinadas em lutar pelo que lhes restava: as vidas dos seus bebés.
Estas mulheres deram à luz em circunstâncias inimagináveis, com intervalos de semanas entre si. Quando nasceram, os bebés pesavam menos de 1,5 Kg cada, e os seus pais haviam sido assassinados pelas forças alemãs, enquanto as mães se haviam transformado em «esqueletos andantes».
Os Bebés de Auschwitz segue a incrível história das mães: primeiro em Auschwitz, onde sofreram o escrutínio cruel de Josef Mengele, o médico nazi conhecido como Anjo da Morte, que selecionava as mulheres grávidas à entrada do campo, destinando-as às câmaras de gás; depois num campo de trabalho alemão onde, esfomeadas, lutaram por esconder a sua gravidez; e, por fim, durante a viagem infernal de comboio, que durou 17 dias, até ao campo de concentração de Mauthausen, onde viriam a ser libertadas pelos Aliados.
A biógrafa Wendy Holden descreve toda a história com minúcia, destacando a coragem destas mulheres e a bondade dos desconhecidos que as ajudaram a sobreviver. Os Bebés de Auschwitz é um livro comovente e uma celebração da nossa capacidade de amar, ajudar e sobreviver mesmo nos contextos mais tenebrosos.

A minha opinião:

Os Bebés de Auschwitz já estava na minha lista de livros desejados para comprar e ler. Depois de ter falado com a Dora do canal Books & Movies a minha curiosidade aumentou. Logo que pude comprei o livro e decidi lê-lo este mês. Primeiro porque a 27 de janeiro é a comemoração em Memória das Vítimas do Holocausto, mas sobretudo porque a Dora criou um projecto #Hol72 em homenagem a essas mesmas vítimas. O projecto consiste em ler, pelo menos, um livro com a temática do Holocausto em janeiro, mas, caso queiramos, ler um livro por mês até ao final do ano.

E o que decidi fazer foi ler um livro por mês, começando por este livro extraordinário de Wendy Holden. Os Bebés de Auschwitz centra a sua história na vida de Priska, Rachel e Anka, três mulheres que se cruzam com Mengele na entrada do campo de concentração, mas sem que as suas vidas de cruzem dentro do mesmo campo. As três entraram grávidas em Auschwitz, mas nunca disseram a ninguém que estavam de bebé. Essa ocultação terá sido a sorte delas e dos seus bebés. Caso o Anjo da Morte descobrisse que estavam grávidas teria encaminhado as três mulheres para as câmaras de gás.

Wendy Holden relata a história das três mulheres e da sua vida no campo de concentração, mas também nos mostra como estão os seus rebentos tantos anos depois do término da Segunda Guerra Mundial. Terá sido mesmo a responsável para que se juntassem, pela primeira vez, setenta anos depois.
Oriundas de países diferentes (Priska é natural da Eslovénia, onde em 1944 os relatos do que acontecia nos campos ainda tinham pouco crédito, Rachel da Polónia, onde os judeus eram vítimas de um preconceito generalizado, e Anka da República Checa), não deixa de ser uma coincidência terem acabado por chegar a Auschwitz nos últimos meses de 1944.
“Apesar de tudo o que tinham passado, admitir que Hitler estava a falar a sério quando prometera erra dicar todos os seres humanos de origem étnica indesejável, por forma a criar uma raça superior, estava para lá do que eram capazes de imaginar. No fim de contas, os alemães eram dos povos mais cultos e civilizados do mundo. Não era possível que a nação que produzira Bach e Goethe, Mozart e Beethoven, Einstein, Nietzsche e Durer, criasse um plano tão monstruoso – ou era?” pag. 45
De facto, é curioso como as notícias sobre os campos de concentração e o que os nazis iam fazendo ainda tinham pouca credibilidade na maioria da população. Apesar de terem de sair das suas casas, perder o emprego, ter de ir viver para guetos, a maior parte dos judeus ainda tinha esperança de que tudo ia voltar ao normal e muitos deles recusaram-se mesmo a sair do seu país.
“Apesar de estarmos esfomeados, tentámos não perder a nossa felicidade. Ainda acreditávamos que estava próximo o dia em que tudo iria mudar.” pag 78
Já li muitos livros sobre a temática, mas este é completamente diferente porque não tinha conhecimento que teria sido possível uma mulher, com falta de comida, a viver em condições deploráveis, conseguisse levar uma gravidez até ao fim. Além de a conseguir esconder de toda a gente. Mas de facto isso não aconteceu com uma, mas pelo menos com três.
“Tínhamos chegado ao inferno, e não fazíamos ideia porquê.” pag. 93
E o mais irónico desta história é que nenhuma das três seguia à risca as regras do judaísmo.
Nem ela, nem os irmãos eram praticantes do judaísmo. “Calhou ser judia e pronto. Não via no que isso pudesse ser obstáculo ao que quer que fosse.” pag. 98
Sem me querer alongar muito nos relatos do livro, para que não haja spoilers, posso dizer que mesmo que contasse parte do que se passa na obra, o leitor iria surpreender-se na mesma. A forma como ele é relatado, a crueldade com que viveram estas mulheres e os seus semelhantes, a forma como elas tiveram os filhos, vão deixar ate o leitor mais forte a ficar com uma lágrima no canto do olho.
Uma das coisas que mais me impressionou, para além dos relatos dos partos e do trabalho escravo na fábrica de munições em Freiberg, foi o facto de Hitler ter conseguido enganar uma equipa da Cruz Vermelha Internacional que decidiu filmar o gueto onde estavam centenas de pessoas a passar fome e outras privações. Este só foi filmado depois de Hitler o ter embelezado. E os judeus foram obrigados a colaborar. “O Fuhrer dá aos judeus uma cidade.”
A seguir à visita tudo foi destruído e voltaram ao mesmo. Nas duas semanas seguintes até passaram mais fome por causa das extravagâncias anteriores.
Depois de vários meses em Auschwitz  e em Freiberg, as mulheres já não conseguiam esconder a gravidez. Mas quando, por fim, descobriram que estavam grávidas, os guardas já não as podiam mandar de volta para Auschwitz, porque Auschwitz deixara de existir.

“Sorte, coragem e determinação tinham mantido as 3 mulheres ao longo da guerra e precisariam de todas as qualidades para enfrentar a vida «depois».  Tudo tinha mudado. Não tinham nada senão perguntas sem resposta. pag 322

Além de um excelente livro, Os Bebés de Auschwitz é um documentário bem fundamentado sobre a vida real destas três mulheres e do que se passou realmente nos guetos, campos de concentração, e a vida nestes três países aquando da invasão dos alemães.

Muito, muito bom.
Excertos: 

“Agradecemos à Wendy – a nossa nova e honorária irmã – em nome daqueles que, como nós, nasceram num regime que planeava matar-nos, mas cujo destino é, agora, serem os últimos sobreviventes do Holocausto.” – Eva, Mark e Hana os bebés de Auschwitz, irmãos de coração que se juntaram pela primeira vez, setenta anos depois.

Com tão pouca comida disponível, era imperioso reduzir o número de bocas a alimentar, por isso mais e mais crianças e idosos foram sendo colocados em comboios rumo ao desconhecido.” pag. 87

“Sentia-me muito orgulhosa da minha estrela amarela e pensei “se querem marcar-me, que marquem.” Para mim, era igual. Vesti as minhas melhores roupas. Arranjei o cabelo. E saí de cabeça erguida, sem rastejar. Era essa a minha atitude.”

“Não podemos dar-nos ao luxo de estar de luto, porque elouqueceríamos.” pag. 134

“Havia uma casa de banho com água fria (intermitente) e uma latrina sem papel higiénico. Usavam os forros das roupas, cartão descartado ou jornais – tudo aquilo que conseguiam encontrar. Ficavam principalmente satisfeitas quando conseguiam usar jornais com fotografias de Hitler” pag. 195

“Levaram-nos para o exterior, despiram-no e regaram-no repetidamente com água gelada até congelar completamente.” pag 268 – sobre a morte atroz do cantautor checo Karem Hasler que morrer em dezembro de 1941 tendo sido transformado numa estátua de gelo.

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