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Baião: Emigração dos netos leva artista solitário a construir peça única

Baião: Emigração dos netos leva artista solitário a construir peça única

Chegamos uns minutos depois da hora marcada e José Nogueira, de 55 anos, já estava à nossa espera. Recebeu-nos com a simplicidade natural de quem vive a vida sem palavras caras nem grande etiqueta. As mãos calejadas do trabalho duro denunciavam uma semana de empreitada que só não tinha culminado no dia do nosso encontro porque “de manhã cedo estava nevoeiro e havia uma tijoleira para assentar que precisava de muito sol”.

Fomos ao encontro do Zeca dos Pombais, como é conhecido, à freguesia do Gove, concelho de Baião. É o artesão de quem todos falam, por esta altura, na região, depois de ter terminado e exposto durante umas horas uma verdadeira quinta rural em miniatura que parece ter saído de um conto de fadas!

A imponência da “Horta do Avô” não deixa ninguém indiferente. Todos, desde miúdos a graúdos, querem saber quem é o autor da obra e tirar a melhor fotografia da peça. Os adultos elogiam-lhe os pormenores, as crianças dão asas à imaginação. Todas querem viver dentro deste mundo encantado em ponto pequeno. A entrada faz-se por um lindo portão cujas laterais estão repletas de flores bem tratadas e geometricamente plantadas. A casa principal é composta por dois andares, garagem, albergue do animal da família, uma capela e uma imponente piscina cheia de água. Do outro lado situa-se a horta onde é possível ver vários animais felizes a pastar pelos campos. Um moinho em pleno funcionamento e a foto de duas crianças nas janelas da casa chamam a atenção dos curiosos.

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José Nogueira começou a trabalhar aos 14 anos. “Fiz o primeiro ano da tele-escola e depois quis vir embora. Era um dos melhores alunos em trabalhos manuais, mas queria ir trabalhar”, conta-nos. O seu primeiro trabalho foi como ajudante na implantação de postes de alta tensão na região mas foi como trolha e canalizador que viria a trabalhar quase desde sempre. “Aos 17 anos já fazia descontos para a caixa. Sempre trabalhei nas obras, só que no ano passado, devido à crise que se abateu nas empresas de construção civil, fui um dos que teve que vir embora. Desde aí que não se consegue trabalho. Vou fazendo uns biscates aqui e ali e quando não aparece nada entretenho-me no meu sótão a fazer estas peças”, diz, orgulhoso, enquanto acaba de pintar mais um andor de Nossa Senhora de Fátima em miniatura.

José é conhecido na terra por ser muito criativo. Era ele, há uns anos, que organizava os Carnavais da sua freguesia e garante “que eram de parar o trânsito”. O artista vê utilidade em objetos que normalmente são deitados fora pela maioria das pessoas. “Com as cápsulas do café faço vasos de flores, com rolhas de garrafão construo suportes para os meus andores e com tubos de plástico que sobram dos meus biscates faço peças a imitar madeira, por exemplo. Eu reciclo tudo. Levo para o sótão e depois logo se vê”, conta. Este artista solitário faz quase tudo sozinho e passa horas no sótão de sua casa a construir obras de arte que “não saem de nenhum projeto, nem desenho”. Vêm da sua cabeça, garante. “Quando começo, normalmente nunca sei muito bem como vou acabar, mas no final até eu próprio me surpreendo”, diz José.

Na mesa da sala de sua casa é possível ver alguns dos seus trabalhos já acabados. Andores em formato miniatura que quase parecem reais. Desde o S. José, Santo António, Nossa Senhora de Fátima ou Nossa Senhora das Candeias, há um pouco de tudo. “Noutro dia vendi um a um vizinho emigrante e já foram vários para Inglaterra, para a Casa dos Portugueses”, garante. “É preciso fazer a estrutura, pintá-la, deixá-la secar e só depois é que se colam as flores. Para fazer isto é preciso ter muita paciência. Nem sempre consigo arranjar as flores que quero”, explica. José garante ainda que “fazer estas coisas toda a gente faz, o que é pior é imaginá-las! As pessoas pedem-me para fazer muitas peças. Noutro dia um senhor pediu-me para lhe fazer um relógio de sol. Disse-lhe que não sabia se era capaz, mas um dia ainda o vou fazer”.

Por agora é a “Horta do Avô” o centro das atenções. A peça foi construída a pensar nos dois netos, quando eles emigraram juntamente com a mãe e se juntaram ao pai, na Suíça, e são eles que estão representados nas duas fotografias colocadas nas janelas da casa principal da Horta. “É uma homenagem a eles. Só tenho aqueles dois”, diz, emocionado, ao recordar o momento em que emigraram.

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Família dá grande incentivo 

Oriundo de uma família de oito irmãos, José Nogueira é casado e tem dois filhos. A família apoia tudo o que faz e compreende as muitas horas que perde, isolado, no sótão de casa a dar asas à imaginação. “Olhe, dá-me para isto! A minha irmã Augusta que vive na Maia quando cá veio ficou maluca com a Horta do Avô. Foi ela que costurou as roupas pequeninas que vimos na peça. Ela é uma costureira exímia e chegou a ir de propósito ao Porto para ver se encontrava umas flores que eu queria e não via em lado nenhum”, conta, orgulhoso. “A minha irmã Amélia que vive no estrangeiro esteve cá há pouco e também quis ajudar com o que pôde. Sabe que fazer estas coisas, é tudo muito bonito, mas quando não consigo reciclar alguns pormenores tenho que os comprar e, embora não pareça, estas coisas ficam muito caras”, diz.

José Nogueira é irmão de Joaquim Nogueira, um artista muito conhecido por fazer concertinas de forma artesanal que são das mais bonitas no mundo e por ser o último e único construtor de concertinas no país. “O meu irmão Joaquim também é um artista. É de família. Já o nosso pai era muito engraçado e fazia coisas que não lembra a ninguém. Ninguém ficava indiferente às marotices dele, nos bailes, por exemplo. Até lhe deram o apelido de maroto”, conta José. “Até os meus filhos e o meu neto mais velho partilharam a “Horta do Avô” no Facebook”, remata, embebecido.

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Autarquia reconheceu mérito de José

Quando acabou as peças que compõem a “Horta do Avô”, José conta que não pôde montar toda a estrutura final no sótão “porque depois a peça não sairia pela porta. Era demasiado grande” e a sua maior preocupação era não ter sítio para a guardar. “Além disso, gostava de a mostrar a toda a gente por isso fui falar com o Presidente da Câmara e pedi-lhe se a podia colocar em exposição em algum lado. Ele disse-me logo que sim”. Depois de ter tido a obra exposta no dia da Feira de S. Bartolomeu em agosto, os técnicos da autarquia, com a sua autorização, levaram a “Horta do Avo” para a Loja do Cidadão de Santa Marinha do Zêzere. “Toda a gente me conhece agora. Não posso ir a Santa Marinha que todos querem saber como é que fiz aquilo. O presidente prometeu-me que depois da peça deixar a Loja do Cidadão que a vai expor na entrada da Câmara”, diz. “Olhe, todos me perguntam onde fui imaginar aquilo, mas se quer que lhe diga a verdade ainda hoje me custa a acreditar que fui que a fiz”, conta, divertido.

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Quer comprar uma peça?

Se passar pelo bonito concelho de Baião, vá até à freguesia do Gôve, não muito longe do centro da Vila de Campelo e na Rua da Rebordosa pergunte pelo Zeca dos Pombais. Todos lhe vão indicar onde é a casa deste homem que certamente o receberá com muita alegria e onde poderá adquirir um andor artesanal com imagens de várias figuras religiosas. Os andores custam 50 euros e demoram dois dias a executar, sem paragens. São únicos no país e todas as imagens religiosas são compradas no Santuário de Fátima. “As pessoas que não pensem que vou aos chineses comprar as imagens, trago-as de Fátima, benzidas, quando lá vou. Gosto muito de lá ir”, remata.

Susana Ferrador
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