Entre-os-Rios: 17 anos após a tragédia, promessa continua por cumprir

Entre-os-Rios: 17 anos após a tragédia, promessa continua por cumprir

21:10 horas de domingo, o jogo do Benfica a ser transmitido na televisão e o povo recolhido em casa da chuva e vento que tornavam feia aquela noite. Apesar do mau tempo, ninguém esperava a notícia que haveria de marcar uma comunidade, um país. Uma ponte caíra. A Hintze Ribeiro, que ligava Entre-os-Rios, em Penafiel, a Castelo de Paiva. E arrastava para as mortais águas do rio Douro 59 pessoas, das quais 53 regressavam, num autocarro, de uma viagem às amendoeiras em flor, em Foz Côa. Foi há 17 anos.

A tragédia chocou os portugueses e obrigou o Governo, então presidido por António Guterres a fixar arraiais, na margem esquerda do revolto Douro. Só Jorge Coelho, à altura ministro do Equipamento Social, foi dispensado de se apresentar em Castelo de Paiva, depois de ter apresentado a demissão. Foi um dos momentos de expiação da culpa. O outro foi quando os governantes prometeram mundos e fundos a um concelho até ali abandonado pelos poderes públicos. Juraram que tudo ia ser feito para minorar a dor de uma comunidade que perdeu pais, irmãos, avós, tios e amigos.

E, de facto, muitas obras foram concretizadas em Castelo de Paiva. “De um pacote de 100 milhões de euros para os concelhos de Castelo de Paiva, Cinfães, Penafiel foram investidos cerca de 90 milhões de euros, ao longo destes 17 anos”, refere Paulo Teixeira, o autarca que, em 2001, tornou-se um dos rostos mais conhecidos do País.

Ficou, contudo, por concretizar a obra que poderia aproximar os paivenses dos centros de decisão, de tornar o município economicamente competitivo e permitir viagens mais seguras aos seus munícipes: o IC 35. A estrada de 14 quilómetros, para ligar Penafiel a uma das duas pontes levantadas após a tragédia, foi garantida por Guterres, aprovada pela Assembleia da República e prometida por todos os governos. A sua construção urgente também foi exigida em múltiplos projetos de resolução subscritos por todos os partidos com assento no Parlamento, mas nunca passou da fase de projeto e concurso público, sempre suspensa quando um novo executivo chegava ao poder.

“17 anos depois de ter sido anunciado é triste isto que está acontecer. Será que vamos ter de ver morrer mais pessoas na EN 106 para que se avance com esta obra?”, pergunta Paulo Teixeira. O ex-presidente da Câmara de Castelo de Paiva defende que “a não construção do IC 35 é da responsabilidade dos partidos que nos governaram desde 2000” e não acredita que, na sua geração, seja possível executar uma promessa sempre adiada. Gonçalo Rocha, sucessor de Teixeira à frente dos destinos paivenses, é outro dos que alega que “a culpa terá de ser atribuída a quem tem tomado decisões ao longo dos anos, adiando uma obra fundamental para o concelho”. Mas, contrariamente ao antecessor, acredita na “vontade do atual Governo e no empenhamento do ministro do Planeamento e das Infraestruturas, Pedro Marques”. “Castelo de Paiva tem encontrado neste Governo um aliado sério e interessado no desenvolvimento do município e o exemplo dessa colaboração está traduzida na futura construção do troço em falta da Variante à EN 222”, frisa o socialista.

Em Penafiel, o otimismo é bem menor. “A Câmara Municipal tem dificuldades em acreditar nas boas intenções deste Governo. Se estivesse realmente interessado em resolver esta situação, teria dado continuidade aos procedimentos do concurso lançado pelo anterior Governo para a construção do primeiro lanço do IC35, entre Penafiel e Rans, e que poderia hoje estar já concluído”, critica Antonino de Sousa, líder de uma coligação PSD/CDS. “Esta situação causa grandes constrangimentos na segurança dos automobilistas e utilizadores da EN 106 e na economia do sul do concelho”, acrescenta.

Já para o autarca socialista de Cinfães, Armando Mourisco, “é inequívoco o atraso que [a ausência do IC 35] tem provocado no desenvolvimento de um território que apresenta os indicadores de desenvolvimento mais frágeis do País”. E destaca “os transtornos causados na mobilidade, quer interna quer nas trocas comerciais externas, associadas aos inúmeros acidentes e vitimas que há muito justificavam a realização da obra”.

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