Opinião: O “sabor máximo” da(s) palavra(s): compromisso

Opinião: O “sabor máximo” da(s) palavra(s): compromisso

Walter Benjamin, pensador judeu que haveria de ser capturado pelos nazis já em Espanha, concretamente em Portbou e quando se preparava para deixar uma Europa que a Segunda Guerra Mundial faria sangrar sem misericórdia, considerava que o trabalho do/a intelectual deveria ser bravo. Assim, o seu afã passaria por olear a máquina sem descanso; tal não se faz despejando uma garrafa inteira de óleo, mas sim vertendo gota a gota nas peças dos vários mecanismos, incluindo-se aqui os da sociedade. Benjamin, como crente na “redenção” da História, cujos anúncios, em lugar de virem das cúpulas do poder, haveriam de exalar de todas as pessoas que ficam esquecidas pela “época”, cria que o/a intelectual deveria desdobrar-se: livro, jornal, revista, panfleto, são alguns dos seus recursos, sem se circunscrever a um canal único. Este filósofo soube que, em face da reprodutibilidade técnica, a palavra ver-se-ia obrigada a viajar sem descanso.

Walter Benjamin assistiu à fractura dos séculos XIX e XX, já que viveu entre os inícios da década de 90 de oitocentos, vindo a falecer em 1940; portanto, submergiu naquela que pode ter sido a mais espessa e escura “noite” Ocidental, ou seja, a qual, e em face de uma retórica de progresso e crescimento ininterruptos, soterrou a Europa. Emmanuel Levinas, filósofo nascido na Lituânia, quem estudou com Heidegger na Alemanha, quem viu a sua família perseguida e morta pelo nazismo, vindo a adoptar a França como país e sem desejar situar-se no Estado de Israel, chama a tais intervalos de tempo “noites sem horas”, ou seja, sem a salvação. Nessas ausências de horas, aflitivas, todo/as nós deveremos reflectir, para que não se repitam. Ora, o próprio Levinas afirmava que escrevia não exactamente o que o Mundo era, mas sim como deveria ser, o que perfila um horizonte de utopia.

Maria Gabriela Llansol bem diz que “ainda nada modificou o mundo”, perseguindo insistentemente uma concepção de espaço que elida o território para construir a Casa. Ora, esta Casa é também a que na linguagem se abre através de boas palavras, de palavras levadas ao seu “sabor máximo”, na bela expressão de Cristina Campo; estar no Mundo não o é apenas através do corpo ou da pátria, mas também a evasão que dele se presta. Tal evasão traz à colação os livros em que penetramos, os textos em que nos deixamos submergir, as letras com que selamos a existência, como se se tatuassem na pele. Já Maria Zambrano, quando nos fala através das metáforas do coração, deixa assente que a poesia sela, ou deveria selar, a informe existência dos homens. E o que se entende aqui por informe existência? Sem dúvida, aquela que não se deixa impregnar pela espiritualidade da palavra. Embora saiba que quando nascemos não sabemos, contam-nos e acreditamos, pelo que o umbigo da História é feito e a nós cabe-nos dançar em torno dele; parece-me, todavia, importante acreditar no sopro da(s) palavra(s) como sibilas, precisamente, da acção.

No entanto, nunca como neste momento em que nos encontramos se desconfiou tanto da(s) palavra(s): como se já não fosse(m) viva(s), como se já não tivesse(m) as coisas e as pessoas dentro dela(s). Neste entorno, então, o que aqui gostaria de deixar enquanto compromisso, e antes de toda a comunicação que possa eventualmente gerar a escrita, será, é mesmo, a observação do “sabor máximo” da(s) palavra(s). Tal significa dar prioridade à experiência e entender-me com ela, para que ressoe e possa posteriormente vir colidir com a das restantes pessoas, na sua singularidade. Em lugar de operadora(s) vazia(s), a(s) palavra(s) traz(em) consigo um anagrama do sujeito; saibamos nós velar por ela(s), para que ela(s) nos faça(m) evadir, o que significa, paradoxalmente, estar de corpo todo presente, ou seja, ter encontrado a economia do discurso que dá conta da nossa vida e, por tal, de cada vida em particular. Compromisso, então: trazer a experiência à colação.

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