Marcador de Livros: O Caminho Imperfeito

Marcador de Livros: O Caminho Imperfeito

Autor: José Luís Peixoto 

Género: Literatura/ Viagem

N.º de páginas: 192

PVP: € 17,70

O lado B do paraíso José Luís Peixoto está de volta com mais uma incursão na literatura de viagens. Destino: Tailândia.

Depois de nos ter mostrado, em Dentro do Segredo, o lado secreto de um dos países mais inacessíveis do mundo, a Coreia do Norte, José Luís Peixoto oferece-nos um olhar pelo avesso de um dos destinos que é o lugar-comum das viagens exóticas: a Tailândia. O Caminho Imperfeito nasce de uma viagem do autor, com o ilustrador Hugo Makarov. O itinerário que percorreram torna-se o fio condutor, levando-os através dos lados menos explorados deste país (a cultura, a religião, a geografia) enquanto se sobrepõem as experiências do autor naquele país do Sudoeste asiático, nesta e em anteriores visitas.

Uma série de tenebrosas encomendas numa estação de correios de Banguecoque faz com que a deambulação se transforme numa demanda através da Tailândia, impulsionando a descoberta do lado mais sombrio deste popular destino de férias.

Esta é também uma narrativa que nos oferece uma reflexão sobre a brutal indústria do turismo. José Luís Peixoto é o turista que observa o outro turista e, nesse jogo de observação, vê o reflexo de si próprio, enquanto visitante e inevitável consumidor.

 

A minha opinião: 

Quando viajamos o que trazemos connosco? As nossas próprias vivências, um determinado local visto sob a nossa perspectiva, que poderá ser completamente diferente do local visto pelo nosso companheiro de viagem, pelas pessoas que também visitaram ou até por turistas que acabam por lá permanecer. Mas não é por isso que não podemos retratar aquele local como se já o conhecêssemos de ginjeira, não é menos válido do que as pessoas que nele habitam. Quando visitámos um local e decidimos falar dele é obviamente sob o nosso ponto de vista, sob a nossa perspectiva. No caso concreto de José Luís Peixoto esta é a sua Tailândia.

Acompanhado por Hugo Makarov (que já tinha colaborado com ele na edição especial de O Principezinho distribuída com a Visão e o jornal “Expresso”), para fazer este livro, que resultaria em ilustrações magníficas do segundo e um verdadeiro relato da viagem pelo primeiro.

José Luís Peixoto acabaria por estar em vantagem visto não ser a primeira vez que visitava o local, nem a segunda. Não foi, portanto, uma surpresa, mas há sempre algo por descobrir.

Viveram momentos engraçados os dois, que engrandeceram o currículo de viagem, mas também este livro. Pelo meio percebemos que “O Caminho Imperfeito” é o caminho feito pelo escritor ao longo da sua vida. Além de um livro de viagens é uma autobiografia, um pouco que o autor dá de si e que deseja revelar.

“Incomoda-me quando alguém acha que sabe quem sou apenas porque leu um livro escrito por mim – como este – ou, até, porque leu uma frase mal citada ou viu a minha cara numa fotografia. Sinto-me agredido quando tentam reduzir-me a conceitos fechados e intransigentes, construídos por olhares que não se questionam a si próprios, que não admitem qualquer hipótese de falha no seu preconceito.”

“O Caminho Imperfeito” é um livro sobre a família, sobretudo os filhos, as primeiras viagens, o seu pai, as irmãs…

o caminho imperfeito (2)

Dono de uma escrita ímpar José Luís Peixoto facilmente me levou a viajar entre a Tailândia e Las Vegas, mas também pelo seu Portugal que também é meu. Pelo Alentejo da sua infância e a Lisboa da sua juventude entre escapadelas pelo Bairro Alto, até às primeiras tatuagens…

“Não sou o meu corpo, não sou o meu nome, não sou esta idade. Não sou o que tenho, não sou estas palavras, não sou o que dizem que sou, não sou o que penso que sou.”

Não me impressionou tanto como “Dentro do Segredo” até porque são realidades diferentes, mas gostei de conhecer algumas histórias tailandesas, algumas sórdidas demais, mas penso que próprias daquele país asiático. O Caminho Imperfeito é um livro de viagens, mas contém também um pouco de autobiografia, o que foi o que mais me agradou.

“Escrevo porque quero que os meus filhos saibam quem sou. Escrever é a minha maneira de ser pai deles para sempre.”

“Escrever é ouvir vozes. Escutei cada uma destas frases antes de escrevê-las.”

São sobretudo as suas palavras, a forma como escreve, que José Luís Peixoto se tornou no meu escritor de eleição.

Recomendo.

 

 

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