O clima, os incêndios e o impacto social e ecológico 

O clima, os incêndios e o impacto social e ecológico 

Este ano, tivemos um ano frutuoso no que diz respeito a incêndios. Uso a palavra frutuoso, não por mero acaso, mas porque frutuoso é um sinónimo de fértil, directamente vinculado com os frutos que colhemos, após semearmos algo.

E, sem querer olhar onde começam e acabam as culpas, deparamo-nos com um problema transversal a toda a sociedade, onde todos os intervenientes, sejam eles autoridades, agentes sociais, agentes educativos ou cidadãos comuns, têm a sua quota parte de responsabilidade neste assunto.

Olhamos para uma sociedade civil cada vez mais desinteressada e narcisista, capaz de fotografar o seu momento de desespero ao passar ao lado de uma estrada onde lavra um incêndio, estampá-lo nas redes sociais dando a conhecer o seu pequeno infortúnio, mas incapaz de parar para ajudar ou de ligar para o 117 ou 112 para, como é seu dever, alertar as autoridades.

Vivemos  a cultura do umbigo, centrada em si própria e que nos impede de observar a totalidade do impacto que os nossos actos, ou não actos, repercutem à nossa volta.

De cada vez que passamos por um fogo, como tantas vezes eu passei este ano ao circular nas estradas deste “antes mais belo” Portugal e caímos na falácia de pensarmos que as autoridades já foram avisadas ilibando-nos da responsabilidade de alertarmos, estamos activamente a permitir e perpetuar a cultura da irresponsabilidade social.

A verdade, é que nesse momento, em que fechamos os olhos, podemos estar a ser coniventes com um crime, podemos estar a ser culpados pela morte anunciada de animais e seres humanos que estejam ou possam vir a estar em perigo.

De cada vez que um fogo lavra, estamos no imediato a perder floresta e todo o ecossistema que dela depende. Estamos a contribuir activamente para o aumento dos gases de estufa e consequentemente para a perpetuação das alterações climáticas com todas as repercussões que já conhecemos, e das quais, a escassez de água e consequente desertificação e seca bem como a diminuição da capacidade produtiva nas áreas da agricultura e pecuária, com consequente escassez de alimento, são duas das grandes preocupações sociais (ainda que a meu ver deveriam ser vistas de um ponto de vista menos egocêntrico e, como tal, deveriam ser tidas como preocupações naturais visto que toda a sociedade depende deste corpo maior que nos dá abrigo e sem o qual nunca teremos sequer direito à vida).

Ainda à partida, deparamo-nos com um grave problema de saúde pública – pois o aumento das partículas de fumo no ar aumentam o risco de problemas respiratórios e a longo prazo originam complicações mais graves como cancro no pulmão, doença pulmonar de obstrução crónica – DPOC, asma, entre outras.

Num curto prazo, ainda, os problemas económico-sociais agudizam-se, obrigando à deslocação de pessoas, que perdem tudo e que são incapacitadas de continuar a obter lucro de terrenos cada vez mais inférteis, secos, escassos em recursos e sujeitos à erosão com consequente perda de valor produtivo.

Falando da erosão, com as chuvas surge também a lixiviação do solo, que nada mais é que o arrastamento de partículas minerais presentes no solo, bem como outros compostos, provenientes das reacções químicas que ocorrem aquando de uma combustão a temperaturas tão elevadas. A acumulação deste excesso de compostos químicos nos nossos lençóis freáticos, leva à sobrecarga das nossas reservas de água com consequente contaminação. Outros problemas surgem então a jusante do problema actual, e que se prendem com a diminuição da qualidade das águas e com o aumento dos problemas de saúde inerentes ao seu consumo.

Os refugiados ambientais são já uma realidade a nível global, mas nós enquanto povo temos alguma dificuldade em observar esse fenómeno internamente. Contudo, a perda de produtividade dos solos devida a uma má política de gestão florestal, a uma falta de informação dos proprietários dos terrenos florestais e agrícolas, e ao aumento das temperaturas devidas ao aquecimento global, mostram que começa já a haver a deslocação de pessoas que não conseguem ver produtividade nos seus terrenos, condenando-os ao abandono, ou, pior ainda, a uma política de lucro fácil com o crescente aumento do eucaliptal que errada e utopicamente se mostram como uma alternativa rentável.

Digo errada e utopicamente pois nada que não seja sustentável é um bom negócio. Se o negócio em si leva ao afundamento do próprio negócio é óbvio que não pode ser considerado como uma boa jogada económica. E só por falta de informação e educação o proprietário investe na produção de eucaliptos, pois esta cultura do “umbigo” leva-nos a ver o agora e o lucro de curto prazo, sem olhar para o dia de amanhã e para a manutenção e gestão dos lucros na linha do tempo.

Inteligentes eram os nossos antepassados, que cuidavam das florestas e as perpetuavam a nível geracional, tendo feito esse valor chegar até aos dias de hoje. Infelizmente, agora que vivemos na época da cultura ao alcance de todos, conseguimos tornar-nos nas gerações mais afastadas e ignorantes no que diz respeito à consciência global, e geracional. Em pouco menos de um século, por este andar, conseguiremos acabar com toda a herança ancestral que os nossos antecessores nos deixaram.

Vivemos uma época complexa a nível de valores, éticos e ideológicos, com uma visão extremamente curta e pouco perspicaz no que diz respeito à vigência do nosso contrato de habitabilidade neste planeta.

Estamos a condenar o nosso futuro, pela incapacidade de tomarmos posse dos nossos sentidos, e realizarmos as nossas prioridades, para lá do conforto da nossa casa. Casa essa, que está cada vez mais doente e dependente de terceiros, para se manter à tona… Numa situação de desconforto aparentemente confortável, onde nos retiram a capacidade de acção, pela nossa inacção assumida em relação àquilo que representamos enquanto humanidade.

Mas se olharmos isto do ponto de vista sociológico, vemos ainda aqui uma grande incapacidade de adaptação do Homem, às alterações climáticas:

Esta, é a época do ano normalmente e tradicionalmente designada como a época de queimadas. Os agricultores fazem-nas para se livrarem de mato seco e ervas daninhas que inundam as suas terras, como um hábito comum entre os meses de Outubro e Novembro.

O problema, é que este ano o Outubro está anormalmente quente e anormalmente seco.

O problema é que a juntar a isto, um fenómeno raro atingiu o continente, que foi a escalada do furacão Ophelia, que ultrapassou a barreira do anticiclone açoriano e instigou a projecção das labaredas descontrolando aquilo que à partida poderia ser controlável.

Na zona onde vivo, são várias as queimadas que vejo a acontecer, apesar das condições climatéricas e apesar do período crítico de incêndios ter sido alargado até 31 de Outubro.

Concluo da minha percepção, que talvez já não sejam os pirómanos insanos mas o agricultor e o homem comum, o responsável por esta vaga tardia de incêndios.

E pior que isso, concluo que a adaptação do homem à tradição, torna-o inadaptável às circunstâncias incomuns e repentinas, como o são as da conjuntura actual.

Infelizmente, as alterações climáticas parece que estão aí para ficar.

Quanto tempo precisará o homem, nomeadamente o homem do campo, que é aquele que vive em maior proximidade aos elementos naturais, para se adaptar e desformatar do seu desactualizado calendário rural?

Quanto tempo levarão as autoridades para entender que é necessário informar e formar as pessoas para as mudanças intrínsecas pelas quais estamos a passar?

Quanto tempo demorará para entender que o aquecimento global (ignorado por Trump e por tantas outras autoridades cegas) é uma bola de neve, que aumenta a probabilidade de incêndios, aumentando com eles os gases de estufa, que consequentemente aumentam o calor na atmosfera e consequentemente aumentam o risco de incêndio?

Quanto tempo demorará para perceber a toda a humanidade, que a única forma de reverter este processo é salvaguardar áreas de floresta autóctone e alargar estas áreas para o dobro da floresta que se perde, para conseguirmos contrabalançar as perdas e externalizar os benefícios decorrentes da sustentabilidade florestal?

Falarmos de maior coberto florestal, é falarmos de maior quantidade de biomassa, mais turismo de natureza, mais oportunidades de emprego, diminuição da temperatura, diminuição com gastos energéticos, diminuição dos custos no combate a incêndios e subsídios e indemnizações posteriores.

Falarmos de reflorestar, é falarmos de envolver as comunidades, para que a emoção que nos une em horas de tragédia seja também a emoção que nos une em momentos de reconstrução social.

Falar de reflorestação consciente é falarmos de aumentar o tempo de vida da sociedade, como a conhecemos. Porque se não o fizermos, as mudanças climáticas serão conhecidas não apenas por fazerem mudar o clima, mas por mudarem o futuro da humanidade. Ou antes, por tirarem o futuro à humanidade…

 

Luzia Peixoto

Engenheira de Ambiente

Professora de Yoga e Terapeuta Natural

 

 

2 comentários
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2 Comentários

  • Joaquim Ferreira
    22 Outubro, 2017, 21:30

    Excelente texto. Excelente visão sobre a realidade. Seria bom que este Jornal online reservasse um espaço na barra inicial sobre "ambiente e ecologia". A nossa "terra" precisa de mais informação para sermos mais conscientes e sensíveis com os nossos belos espaços naturais, privados ou públicos.

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  • [email protected]
    15 Fevereiro, 2018, 22:33

    Muito Bom. Uma oportuna e excelente reflexão.

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